Relatório aponta falhas à segurança informática do Hospital de Ponta Delgada
15 de dez. de 2021, 10:58
— Lusa/AO Online
No
documento, a que a Lusa teve acesso, os peritos informáticos
referem que faltava ao sistema do Hospital Divino Espírito Santo (HDES),
em Ponta Delgada, o pacote de segurança disponibilizado desde 2017
pelo sistema operativo para responder ao tipo de ataque a que a unidade
de saúde foi sujeita. “A Microsoft lançou,
na altura [em 2017], ‘patchs’ de segurança para essa vulnerabilidade e
medidas de mitigação. Não estavam aplicadas no HDES”, lê-se no relatório
da Microsoft sobre o ciberataque à unidade hospitalar da maior ilha
açoriana.Os peritos da empresa referem que
o ciberataque ao HDES, com início a 16 de junho, é denominado
‘WannaCry’, um tipo de ciberataque difundido em 2017 após afetar várias
instituições em todo o mundo, como o Serviço Nacional de Saúde
Britânico.O documento refere ainda que, no sistema do HDES, existiam várias contas de administrador “usadas em contexto não restrito”.A
Microsoft lembra que as contas de administrador costumam estar
limitadas a poucos utilizadores, porque são a “primeira etapa na
elevação de privilégios” nos sistemas informáticos.O
relatório refere que existiam senhas “comuns” em várias contas, o que
facilita o acesso de um pirata informático a vários computadores.Esse
tipo de “vulnerabilidade”, segundo o documento, pode ser “mitigada”
através de um programa para a administração de palavras-chave, mas esse
sistema só estava instalado “numa amostra residual dos computadores”.O
relatório alerta ainda para a falta de segurança de várias
palavras-passe, uma vez que havia senhas não encriptadas [cifradas ou
codificadas] em 11 computadores, relativas a 14 utilizadores.Os
especialistas destacam que a utilização de palavras-passe em "texto não
criptografado são arriscadas não apenas para a entidade exposta em
questão, mas para toda a organização”.Nas
recomendações, a Microsoft apela à “sensibilização dos utilizadores”,
avançando que “foram observadas atividades que colocam o meio ambiente
em risco, especificamente o uso de torrents”, uma extensão para
transferir arquivos, vulgarmente utilizada para instalar programas,
filmes ou jogos.Os peritos sugerem também “reduzir o nível de privilégio para contas de serviço” e “alterar as senhas periodicamente”.“Embora
o comprometimento tenha ocorrido no domínio HDES, recomendamos que as
recomendações e ativações discutidas ao longo do nosso trabalho sejam
abordadas em todos os domínios da SRSA [Secretaria Regional da Saúde]”,
aponta o relatório.A Microsoft diz ainda
não ser possível identificar o autor do ataque, devido aos “baixos
limites de retenção” das cópias de segurança e à ausência de um programa
para monitorizar e detetar ataques informáticos.O
BE/Açores, que requereu na Assembleia Regional o relatório da
Microsoft, considerou na quinta-feira que o Conselho de Administração do
hospital de Ponta Delgada foi “irresponsável” na gestão do ataque
informático, por ter revelado publicamente o ciberataque.A
29 de novembro, a presidente do Conselho de Administração do Hospital
de Ponta Delgada afirmou que a decisão de “isolar informaticamente” a
unidade de saúde “foi correta e eficaz”, considerando que o ex-diretor
de informática “desvalorizou” a suspeita de ataque informático.Nesse
dia, o ex-diretor de informática do Hospital de Ponta Delgada, Ricardo
Cabral, rejeitou, no parlamento dos Açores, responsabilidades nos
problemas informáticos ocorridos na unidade de saúde, criticando "o
caminho errado" e "perda de raciocínio lógico" da administração.