"Relação Portugal/EUA pode ser enriquecida com Governo de Joe Biden"
30 de nov. de 2020, 11:21
— Lusa/AO Online
“Durante muito tempo – e
excessivamente, na minha opinião – olhou-se para a relação entre
Portugal e os Estados Unidos como ‘as Lajes’”, diz Augusto Santos Silva,
referindo-se ao que considera ser um plano de cooperação muito mais
abrangente entre os dois países, que alberga diversos patamares.Numa
entrevista ao ‘podcast’ Atlantic Talks, da Fundação Luso-Americana para
o Desenvolvimento (FLAD), o ministro dos Negócios Estrangeiros
português reconhece que o Governo do republicano Donald Trump trouxe
algumas “involuções” nas relações dos EUA com os seus aliados, mas diz
ter a “convicção profunda” de que “Estados Unidos e Europa vão regressar
ao nível de diálogo e cooperação que tem existido há décadas”.Santos
Silva destaca três elementos no enriquecimento das relações entre
Portugal e os EUA, nos últimos anos, destacando a cooperação científica e
universitária entre estabelecimentos de ensino superior portugueses e
norte-americanos; a mudança económica, com mais forte presença de
investimento e de capital dos EUA em Portugal (nos bancos ou nas
empresas tecnológicas) e a existência de interlocutores que “percebem
bem o valor dos mais de um milhão de portugueses e luso-americanos que
vivem nos Estados Unidos”.Na entrevista ao
'podcast' Atlantic Talks, Santos Silva defende que a Europa deve ter
uma postura ativa no novo relacionamento com os Estados Unidos, no
momento de transição de poder entre a administração Trump e o novo
Governo de Joe Biden, recordando, por exemplo, que “a Europa não é
neutra” na disputa entre os Estados Unidos e a China, já que “está muito
mais próxima dos EUA”.“O facto de não
sermos neutros, não quer dizer que não sejamos autónomos. Aliás, temos
um entendimento da China e da nossa relação com a China que não pode ser
reduzido a uma única dimensão, como foi característico da Administração
Trump”, acrescentou o chefe da diplomacia portuguesa.Neste
complexo modelo geopolítico, Santos Silva defende que Portugal deve
explorar os laços de proximidade com os Estados Unidos e o valor
estratégico do seu território, no espaço do Atlântico Norte, onde a NATO
desempenha um papel fulcral.“Do nosso
ponto de vista, os Estados Unidos têm um interesse evidente em ter uma
boa cooperação com Portugal nos Açores. Basta olhar para o mapa para
percebê-lo”, explica Santos Silva, recordando que, das duas vezes que
falou com conselheiros de segurança nacional do Governo Trump (com o
general McMuster e com John Bolton), “a conversa foi muito fácil, porque
em ambos os casos eles tinham mapas na parede…”.O
ministro dos Negócios Estrangeiros reconhece que, com o Governo de
Donald Trump houve mesmo progressos no entendimento entre Portugal e os
EUA, relativamente a executivos anteriores.“E
um dos progressos que houve foi no que diz respeito às Lajes. Porque,
nenhuma redução ulterior (de presença norte-americana nos Açores) foi
sequer planeada. Foi possível tratar de questões pendentes (…) de uma
forma amigável entre aliados”, explica Santos Silva.O
ministro diz que a questão do desinvestimento dos EUA nas Lajes
decorreu de equívocos em governos anteriores aos que neste momento
dirigem os destinos dos dois países.“Havia
uma ambiguidade quando eu cheguei a ministro dos Negócios Estrangeiros.
Uma ambiguidade infeliz causada em primeiro lugar pela infeliz decisão
norte-americana de reduzir o contingente na base das Lajes e pela
reação, também infeliz, do Governo português de então que sugeriu ‒ e
estou a ser diplomático - que se os Estados Unidos não queriam as
Lajes, podia haver outros países que a quisessem”, lembra Santos Silva,
rejeitando que Portugal possa colocar as Lajes “a leilão”.Santos
Silva considera que as Lajes devem ser vistas como um ativo estratégico
importante de Portugal, para ser tratado com “em cooperação com os
aliados portugueses”.“Portugal tem
parceiros em todo o mundo, mas só tem aliados na União Europeia e na
NATO”, conclui o chefe da diplomacia portuguesa.