Regresso "complicado" de bloco de Emmanuel Macron à Assembleia Nacional francesa
29 de ago. de 2022, 08:39
— Lusa/AO Online
Alain Laquièze, professor de Direito Público
na Universidade Paris Descartes, disse à Lusa que "a lógica mostra que
teremos menos textos adotados nos próximos meses em comparação a outros
inícios de legislatura" e que estes "serão mais curtos, porque quanto
mais artigos, mais alterações apresentadas pela oposição""Apenas
com adoção [parlamentar] forçada [pelo presidente] para um texto, além
do orçamento, vai ser complicado para o Governo", disse o especialista
em Direito Constitucional e no parlamentarismo francês.Para
o orçamento, o Governo francês tem consagrado na Constituição a
possibilidade de aprovação sem o plenário. Trata-se do artigo 49.3 e o
seu uso, a partir de 2008, passou a estar limitado a leis orçamentais e
apenas a mais uma proposta de lei por sessão legislativa. Mas
a utilização desta lei é controversa, tendo levado no passado a grandes
manifestações como a suscitada pela lei do trabalho em 2016 com
François Hollande.O académico tem
"dúvidas" sobre o método adotado pelo Governo liderado por Elisabeth
Borne de discutir projeto a projeto em vez de entrar numa coligação
parlamentar sólida com o partido de direita, Os Republicanos."Até
agora, a posição de Emmanuel Macron e de Elisabeth Borne era de dizer
que iriam procurar maiorias de ideias sobre cada texto e com uma
geometria variável, mas eu tenho muitas dúvidas sobre este método. É
irrealista", explicou o docente universitário.Em
julho, altura em que os deputados tomaram posse e foi aprovada a
primeira medida do segundo mandato de Macron, a lei do poder de compra,
foi junto d'Os Republicanos que a maioria relativa do Presidente
encontrou entendimentos e fez compromissos.Do
lado da esquerda, o entendimento não foi possível, já que a exigência
era não dar ajudas temporárias, mas sim um aumento geral dos salários.
As divergências entre a maioria e a esquerda, trouxeram de novo ao
Parlamento os 'holofotes' e o debate político aceso fez manchetes, algo
que não aconteceu durante os últimos cinco anos."Vai
ser preciso um compromisso para aprovar os textos na Assembleia,
portanto não acredito que as medidas sejam mais radicais em si. No
entanto, nas discussões, as intervenções foram vivas e havia, por parte
dos deputados da França Insubmissa, posições muito radicais",
observou Alain Laquièze.Há 20 anos que a
sessão parlamentar em França não começava em outubro, um adiamento que
permite ao Governo tentar encontrar aliados para os diferentes textos
'quentes' que tem em mãos, como a reforma do subsídio de desemprego, o
sistema de pensões ou ainda novas medidas para o ambiente. A reforma da lei da imigração, um tema que promete incendiar a sociedade francesa, foi mesmo adiada para dezembro.Já
no que diz respeito a medidas urgentes, Alain Laquièze lembra que o
Presidente e o Governo em França têm recurso a poderes legislativas
importantes, não ficando reféns de um Parlamento sem acordo nos casos
mais prementes."Quando se trata de
decisões que têm de ser tomadas rapidamente, o Presidente e o Governo
têm margem de manobra. Por exemplo, enviar tropas para o estrangeiro, o
Presidente é que toma a decisão e informa o Parlamento. Não somos como a
Alemanha onde os deputados têm de ser consultados, mas se se tratar de
financiamentos suplementares, isso tem de passar pelo Parlamento",
concluiu.