Região ganha “plataforma científica única” com o Azores Ocean
Hoje 10:11
— Ana Carvalho Melo
“Se este navio não chegasse, a investigação nos Açores não ia passar de determinados patamares.” Quem o afirma é Gui Menezes, diretor do Okeanos, o Instituto de Investigação em Ciências do Mar da Universidade dos Açores, após a primeira expedição científica do navio de investigação Azores Ocean.Sob a liderança de Gui Menezes, a missão inaugural de cinco dias confirmou o potencial deste navio, tendo “superado as expectativas” e deixado a região com uma “plataforma científica única”.Em entrevista ao Açoriano Oriental, Gui Menezes recordou que, durante mais de três décadas, a investigação marinha na região dependeu do navio Arquipélago, plataforma na qual se fez muito bom trabalho. Contudo, a embarcação encontra-se em fim de vida e desprovida dos equipamentos tecnológicos avançados necessários para dar resposta às exigências da ciência moderna.Agora, com a chegada do Azores Ocean, abre-se um novo horizonte, com o investigador a enfatizar que a ambição da comunidade científica açoriana é liderar e estar entre os melhores na investigação marinha internacional, um objetivo agora sustentado por meios de excelência.“É um navio muito bem desenhado, versátil, equipado e confortável, permitindo maior permanência no mar do que o Arquipélago. Temos um potencial enorme para crescermos e reforçarmos ainda mais a nossa relevância na investigação marinha neste país”, afirmou.Expectativas superadasO novo navio de investigação Azores Ocean concluiu a sua primeira expedição científica, após uma missão de cinco dias, na qual uma equipa multidisciplinar testou no mar alguns dos equipamentos que vão sustentar a investigação oceânica nos Açores nas próximas décadas.A missão começou a 29 de outubro e juntou investigadores do Instituto de Investigação em Ciências do Mar – Okeanos, da Universidade dos Açores, e um elemento do Instituto Hidrográfico da Marinha Portuguesa.Para Gui Menezes, diretor do Okeanos e chefe de missão, o balanço é positivo.“A campanha correu muito bem, superou as minhas expectativas em termos daquilo que são as potencialidades deste navio”, afirmou ao Açoriano Oriental.Segundo o investigador, que integrou a equipa que participou no desenho da embarcação, “estar a bordo e experienciar todas essas potencialidades é uma experiência muito diferente”.Sobre os objetivos desta primeira saída, Gui Menezes explicou que não era tanto produzir resultados científicos, mas antes “familiarizar-nos com o navio, com a colocação no mar e a recolha de diferentes equipamentos”, de modo a perceber quem intervém em cada operação e com que facilidade estas são executadas a bordo deste novo navio.Com este objetivo, ao longo dos cinco dias, na área do Canal e a sul da ilha do Pico, foram testadas várias áreas de investigação.Na oceanografia, Tiago Serpa e Selina El Gaziri fizeram 16 perfis com um CTD, um equipamento que regista variáveis ambientais ao longo da coluna de água. As medições chegaram aos 690 metros de profundidade e incluíram temperatura, salinidade, oxigénio dissolvido e pH.No estudo do plâncton, Clara Loureiro, da equipa MicroSent, no âmbito do projeto Micro2Sea, testou redes Bongo de malha fina a 20 e a 170 metros de profundidade. Segundo o chefe de missão, esta operação foi “um sucesso”.Diana Catarino e Judit Nieto, da equipa TubaProf, testaram câmaras com isco (BRUVs), usadas para estudar peixes de profundidade. Os primeiros dias não o permitiram, mas no último foi possível colocar esta câmara no fundo e gravar cerca de três horas de imagens.A acústica marinha teve grande destaque, com cerca de 35 horas de utilização. António Tavares, do Instituto Hidrográfico, e Irma Cascão, do Whale Lab do Okeanos, testaram todas as frequências das ecossondas de bordo. Segundo Gui Menezes, estas sondas permitem “ver e interpretar tudo o que acontece na coluna de água em termos de cardumes de peixes ou de plâncton e outros organismos”. Com a sonda multifeixe, a equipa mapeou cerca de 64 km2 de fundo marinho em relevo tridimensional. Um dos testes identificou o arrastão Viana, afundado em 1994 na costa sul do Faial, a cerca de 46 metros de profundidade. O ADCP, que mede correntes, registou dados até aos mil metros.Na área da tecnologia, Tiago Conceição desenvolveu, durante a própria campanha, um software que reúne num único painel de controlo os dados de todos os sensores de bordo, da navegação às restantes medições contínuas. A missão contou ainda com Renato Bettencourt, técnico do IMAR e operador de ROV.Apesar do sucesso dos testes efetuados, outros equipamentos de maior exigência e complexidade de operação terão ainda de ser testados em futuras missões. Um dos casos é o ROV (Remotely Operated Vehicle, veículo operado remotamente) – com cabo umbilical de fibra ótica, capaz de atuar até aos 3000 metros de profundidade e de recolher amostras e vídeo de alta resolução –, cujo mergulho será testado no próximo ano, sendo necessário que o sistema de posicionamento dinâmico do navio esteja completamente operacional.Está igualmente prevista a testagem de redes de arrasto de meia-água, destinadas a estudar os organismos mesopelágicos, essenciais na cadeia trófica marinha e, em particular, na alimentação de cetáceos e de grandes predadores, por exemplo. O Okeanos não tem experiência na operação desta rede, pelo que seria importante estabelecer parcerias estratégicas e acordos com instituições nacionais, como o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), para formação e testes de utilização.“O navio é um excelente navio, tem excelentes condições e abre aqui muitas portas para o futuro, porque realmente ficamos com uma capacidade científica e com uma plataforma científica única, que vai permitir fazer muitas coisas que até agora não nos era permitido fazer”, concluiu.