Referendo sobre reforma judicial testa aura de invencibilidade de Meloni
Itália
Hoje 12:10
— Lusa/AO Online
Com uma aura de invencibilidade,
tanto internamente como a nível da UE, desde que assumiu o poder, em
outubro de 2022, a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, pode
consolidar essa imagem em caso de vitória do “sim” na consulta, até
porque esta reforma é uma das grandes prioridades da legislatura. Mas
muitos analistas consideraram que este referendo é uma aposta muito
arriscada, já que uma eventual derrota pode representar uma rejeição à
liderança de Meloni e minar a imagem de domínio político, com as
eleições legislativas de 2027 já no horizonte. “Está
a tornar-se um referendo sobre o sim ou o não ao governo”, comentou, em
entrevista esta semana ao jornal Financial Times, Romano Prodi, antigo
presidente da Comissão Europeia e duas vezes primeiro-ministro da
Itália.À frente daquele que já é um dos
executivos mais estáveis e duradouros da história do país, Meloni tem
atacado sistematicamente ao longo da legislatura o setor judicial, que
acusou de estar politizado e de tentar minar as políticas do governo,
incluindo no domínio do combate à imigração ilegal, tendo o executivo
elaborado um plano de reforma que é agora alvo de um referendo
constitucional de ratificação.A reforma
preconizada pelo governo – uma coligação formada pelos partidos Irmãos
de Itália (pós-fascista, encabeçado por Meloni), Liga (extrema-direita,
liderado por Matteo Salvini) e Força Itália (direita, presidido por
Antonio Tajani) – prevê a separação das carreiras de juízes e
procuradores, para que não possam mais trocar de funções, cria um
tribunal superior para disciplinar os membros do sistema judicial,
divide o órgão de autogestão do sistema judicial em dois, e altera a
forma como os juízes deste são eleitos, utilizando um processo de
sorteio. A reforma é veementemente
rejeitada pelo sindicato dos magistrados e pelos partidos da oposição,
segundo os quais a mesma vai enfraquecer o poder judicial e poderá ser
um passo para colocar os procuradores sob o controlo do executivo.A
campanha para o referendo, encerrada na quarta-feira, ficou marcada por
um extremar de posições, com a direita a intensificar ataques aos
magistrados, recorrendo sobretudo às redes sociais para tentar passar a
sua mensagem. Por seu lado, os partidos da
oposição formaram uma ampla coligação em defesa do “não”, realizando
sucessivos comícios, o último dos quais celebrado na quarta-feira, em
Roma, com os líderes das principais forças políticas de esquerda a
apelarem juntos para o chumbo de uma reforma que dizem constituir uma
ameaça à independência do poder judicial.Desde
há muito que os partidos políticos de direita em Itália se queixam de
perseguição por parte do poder judicial, designadamente desde todos os
problemas legais enfrentados pelo antigo magnata e primeiro-ministro
Silvio Berlusconi, fundador do Força Itália, falecido em 2023.Na
reta final da campanha, e com o desfecho da consulta a permanecer
completamente em aberto, a campanha subiu de tom, com acusações de parte
a parte, tendo a autoridade reguladora dos meios de comunicação social
de Itália constatado um viés a favor do “sim” precisamente por parte do
canal da família Berlusconi, a Rete 4, avivando as críticas da oposição,
que também acusou o governo de tentar controlar os 'media'.Embora
referendos já tenham ditado a queda de governos em Itália no passado,
Meloni garantiu, na semana passada, que “o governo não se demitirá se o
‘não’ vencer”. “Dissemos que íamos
implementar uma série de reformas, mas agora cabe aos italianos decidir.
Queremos chegar ao fim do mandato parlamentar e ser julgados pelos
italianos nessa altura. Agora vamos votar sobre a justiça, não sobre
política”, argumentou, numa mensagem publicada nas redes sociais pela
primeira-ministra, conhecida e criticada por não gostar de dar
entrevistas.Por seu lado, Elly Schlein,
líder do Partido Democrático (centro-esquerda), principal força da
oposição, afirmou-se convicta, no comício de encerramento da campanha
pelo “não”, que a grande coligação de esquerda vai “ganhar as próximas
eleições” e formar governo em 2027. Schlein
disse que, “ao contrário [da direita], que acha que quem obtém mais um
voto não deve ser julgado”, a coligação de esquerda pretende permanecer
sob escrutínio do poder judicial, “porque é assim que funciona a
democracia”.No início da campanha para o
referendo, o “sim” tinha uma grande vantagem sobre o “não”, mas nas
últimas semanas a tendência inverteu-se e as últimas sondagens,
publicadas no início do mês – dado em Itália ser proibida a divulgação
nas duas semanas anteriores à votação – apontavam mesmo para uma ligeira
vantagem da rejeição da reforma, com vários analistas a considerarem
que será decisiva a afluência às urnas.