Redes sociais trouxeram polarização política às famílias portuguesas
29 de jun. de 2024, 10:36
— Paulo Agostinho, da agência Lusa
O alerta é da Ordem dos Psicólogos e são muitos os casos de aumento da diferença de valores dentro de cada família. Por
exemplo, Ana, 52 anos, sempre votou à esquerda e foi surpreendida pelo
facto de o seu filho mais velho votar na extrema-direita nas eleições
legislativas de março. “Não fazia a menor ideia das suas ideias
políticas. Não discutimos política, mas nunca pensei que tinha alguém
com ideias tão extremadas cá em casa”, disse a progenitora, que
responsabilizou os “vídeos do Tiktok e do YouTube” pelas opções
políticas do filho.Falando à Lusa na
véspera do Dia Mundial das Redes Sociais, a vice-presidente da Ordem dos
Psicólogos Portugueses Sofia Ramalho considerou que este é apenas um
exemplo que se repete em muitos agregados familiares, em que os consumos
‘online’ aumentam a diferença de valores, ideologia e convicções entre
as gerações.“Esta polarização e as
posições mais extremadas podem ter impacto na saúde mental, mas por
outro lado, também no próprio diálogo intergeracional, junto das
famílias”, afirmou a especialista.O
consumo individual das redes sociais constitui “um teste à nossa
resiliência individual, enquanto pessoas, e à resiliência da nossa
democracia, tendo em consideração a disseminação de informações falsas”,
salientou. Os psicólogos identificam um
aumento das ansiedades e de problemas de saúde mental, em muitos casos
relacionados com o ambiente polarizado da sociedade, mas também casos de
dependências ‘online’.Apesar disso, Sofia
Ramalho considerou que é “possível usar a tecnologia a favor da
inclusão, a favor do diálogo e da própria participação cívica”,
procurando “plataformas que facilitem este diálogo entre gerações
diferentes e que facilitem a apreciação mútua das diferentes
experiências e faixas etárias”. Despertada
para o facto de o filho ter convicções completamente diferentes das
suas, Ana decidiu conhecer os fóruns ‘online’ e os influenciadores
digitais de extrema-direita em Portugal.“Eu
agora percebo porque é que ele votou em quem votou. Pode ser para
chatear ou porque sente que não há resposta. Mas, se calhar, também é a
minha responsabilidade por ter desistido de discutir os problemas em
casa”, desabafou a mãe.Agora, passaram a ver as notícias na televisão em família e, sempre que pode, tenta discutir os temas da atualidade. “Ele
até pode votar onde votou, mas é importante que perceba que as coisas
são complicadas” e que “os problemas do país não se resolvem de um dia
para o outro”, explicou.Para Sofia
Ramalho, é essencial que a sociedade faça um esforço de promoção da
“literacia digital”, numa “lógica do desenvolvimento de competências
transversais, nomeadamente, por exemplo, o sentido crítico e o
discernimento para poder distinguir o que são informações verdadeiras de
informações falsas”. Rui tem 17 anos e já
sabe onde vai votar. Filho de pais conservadores, já decidiu que vai
votar num partido que defenda “o ambiente do modo mais radical possível.
Sem cedências”.“Eu só vejo ‘reels’ e
vídeos sobre os problemas do mundo. Estamos a destruir o mundo e as
pessoas não se preocupam”, afirmou, minimizando os temas tradicionais da
política. “O que é que interessa o PIB
[Produto Interno Bruto] se não existir planeta para vivermos daqui a uns
anos?” – questionou, ansioso.Nas
famílias, Sofia Ramalho defende que os pais se envolvam no consumo
‘online’ dos filhos: “É importante um diálogo em família sobre a
utilização das plataformas digitais ou das redes sociais do que
propriamente estar a controlar o que os mais novos consomem”.Até porque, salientou, a partir da adolescência, o consumo é “naturalmente autónomo” para se demarcarem os progenitores. As
plataformas “devem ser sujeitas a políticas de transparência,
responsabilizadas por aquilo que façam no “combate ao discurso de ódio”,
disse. “As redes sociais que são
frequentadas pelos jovens não são as mesmas que as frequentadas pelos
adultos”, mas há “plataformas conjuntas”, só que “os conteúdos são
diferentes” o que, na prática, faz com que as bolhas de informação sejam
complemente separadas. “O diálogo tem de
ser mantido fora internet”, dentro das famílias, “para que seja possível
que cada geração lide de uma forma crítica com o seu consumo”. E “isso
só se consegue com diálogo e discussão”.Contudo,
o tempo excessivo na internet “dificulta a oportunidade de diálogo
presencial, de discussão crítica, entre pais e filhos”, salientou.