Recuperação de 350 hectares da laurissilva dos Açores estabilizou população do priolo
17 de ago. de 2024, 10:47
— Lusa/AO Online
“Nos últimos anos temos
verificado uma estabilidade no tamanho da população, o que é um bom
sinal. Não é um crescimento enorme, mas é um bom sinal. É sinal de saúde
da população que está a responder a todo o trabalho feito na
recuperação do habitat”, adianta à agência Lusa a coordenadora nos
Açores da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), Azucena de
la Cruz Martin.O primeiro projeto da SPEA
para proteger o priolo, designado LIFE Priolo, iniciou-se em outubro de
2003, quando aquela ave, que vive nos concelhos do Nordeste e Povoação
(zona oriental da ilha), estava classificada como “criticamente em
perigo de extinção”.Desde então, as várias
iniciativas permitiram alterar o estado de conservação do priolo para
"vulnerável" (obtido em 2016), a classificação mais baixa para espécies
em risco de extinção, segundo a União Internacional para a Conservação
da Natureza.“É o mais baixo dos estatutos
de ameaça. Significa que a população já está num estado muito melhor do
que há 20 anos quando começaram os trabalhos da SPEA, altura em que o
priolo estava criticamente ameaçado de extinção. Era a situação pior
possível”, realça Azucena de la Cruz Martin.Em
2023 foram identificados 1.061 priolos, de acordo com a mais recente
edição do Atlas do Priolo, iniciativa anual em que voluntários se
dedicam a contar o número de exemplares da espécie.O
trabalho que permitiu estabilizar a população da ave endémica nos mil
animais consiste na recuperação do habitat através de replantação da
laurissilva originária das ilhas açorianas.“A
floresta laurissilva, que originalmente cobria todas as ilhas dos
Açores, desde o início do povoamento que foi sendo cortada, utilizada
para madeira ou ficando degradada e substituída por pastagens e por
outros tipos de floresta plantada”, explica.Além
da remoção de várias invasoras (como a conteira, a clethra ou o
incenso), foram plantadas mais de 200.000 plantas endémicas e nativas
(que foram cultivadas em viveiros), o que permitiu recuperar mais de 350
hectares de floresta laurissilva e 99 hectares de turfeiras.“O
trabalho consiste, essencialmente, na remoção das espécies invasoras
que vieram de fora e começaram a ocupar o espaço das plantas que
existiam e que serviam de alimento ao priolo”, assinala a também
investigadora em Ciências do Ambiente.A
coordenadora nega que exista uma devastação do habitat do priolo no Pico
da Vara (Nordeste), afirmando que o corte das criptomérias naquela zona
é um “processo necessário para recuperar a saúde florestal da área”
devido ao fim de vida das árvores plantadas nos anos 60 e 70 do século
passado.“Quando as criptomérias são
cortadas, inclui toda a área. Para quem vê pode parecer que está a ser
feito de maneira muito rápida, mas é assim que tem de ser feito. Os
planos de gestão florestal até vão incluir mais áreas com nativas para
servir de corredor para o priolo”, explica.Destacando
que o corte das árvores é um trabalho da Direção Regional dos Recursos
Florestais, Azucena de La Cruz realça que no final do processo a
“expectativa é que o ambiente seja melhor para o priolo”.“É
um processo que é necessário acontecer. Em muitos casos, após o corte,
estão a ser selecionadas áreas de linha de água e de mais declive para
serem transformadas em áreas de conservação e serem plantadas com
plantas nativas ou folhosas”, reforça.A 30 de janeiro, durante a campanha para as eleições regionais, o
BE/Açores denunciou o “desmatamento sem qualquer controlo” na zona de
habitat do priolo, uma população que, segundo por um empresário local de
turismo da natureza, está a diminuir “drasticamente”, alegação
rejeitada pela SPEA.