Recuo nas áreas marinhas protegidas nos Açores seria “um tiro no pé”
15 de jul. de 2025, 15:27
— Lusa/AO Online
“Parece-me
que é um tiro no pé e até, do ponto de vista da imagem dos
Açores, extremamente negativo dizer que, afinal, a gente tem áreas
protegidas, mas pode-se pescar!”, afirmou o docente universitário,
doutorado em ecologia animal, ouvido na Comissão de Assuntos
Parlamentares, Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (CAPAD’S), reunida
em Ponta Delgada.A audição de José Neto
Azevedo ocorreu na sequência de uma proposta apresentada pela bancada do
PS, que pretende alterar o
diploma aprovado em outubro de 2024 na Assembleia Legislativa Regional,
sobre a rede de áreas marinhas protegidas dos Açores (RAMPA), no sentido
de permitir que a pesca do atum possa continuar a ser feita nas zonas
de reserva total.“É muito importante que
uma determinada proporção das áreas marinhas protegidas seja de proteção
total”, disse o professor da academia açoriana, que discorda da exceção
que se pretende agora introduzir ao diploma inicial, que determina a
existência de 30% de áreas marinhas protegidas no arquipélago.Segundo
explicou aos deputados, é necessário criar medidas restritivas à
atividade piscatória no arquipélago, sob pena de, a este ritmo, a pesca
poder deixar de ter futuro na região: “a pesca, se continua como está,
não tem futuro! Nós estamos a extrair muito mais do que aquilo que os
ecossistemas conseguem repor”.Os deputados
do PS alegam, porém, que a pesca do atum, que é efetuada com arte de
salto e vara (cada pescador usa apenas uma cana e um anzol), já é
suficientemente seletiva e amiga do ambiente, além de ser um tipo de
captura “sustentável”, comparada, por exemplo, com as redes de cerco
utilizadas pelos atuneiros espanhóis.“É
verdade que é uma pesca extremamente seletiva, mas isso não significa
que seja sustentável”, ressalvou o especialista durante a audição
parlamentar, lembrando que a arte de pesca com salto e vara “é muito
pouco destrutiva”, mas que a intensidade com que a é feita é que
determina “se é sustentável ou não!”A
proposta apresentada pela bancada socialista no parlamento açoriano
alerta também para as consequências económicas que a proibição da pesca
nos bancos submarinos açorianos, como Princesa Alice, D. João de Castro
ou os ilhéus das Formigas, poderão vir a ter junto da frota atuneira dos
Açores e da própria indústria conserveira.Questionado
a esse propósito, José Neto Azevedo minimiza, no entanto, esses
efeitos: “ninguém está a dizer que não se pesca mais atum nos Açores! As
capturas mantêm-se! O que vai acontecer é que não pescam em
determinados sítios!”.Os dois maiores
partidos nos Açores (PSD e PS), já encetaram, entretanto, negociações
entre si, no sentido de evitar um eventual recuo no projeto das áreas
marinhas protegidas, e também um previsível embaraço junto das
instâncias europeias, que, na altura, elogiaram as autoridades regionais
pelo aumento das áreas marinhas protegidas nas ilhas.Segundo
apurou a Agência Lusa, junto de fontes dos dois partidos, o acordo
poderá passar pelo adiamento da entrada em vigor da nova rede de áreas
marinhas protegidas, de forma a permitir que a pesca do atum possa
continuar a realizar-se nos bancos submarinos, pelo menos, durante mais
algum tempo.Os deputados vão ouvir esta
terça-feira, ainda a propósito deste tema, representantes da Associação
de Operadores Marítimo Turísticos dos Açores (AOMA) e da Associação dos
Industriais de Conservas de Peixe dos Açores (Pão do Mar).