Rebuçados tradicionais adoçam boca de novos e velhos nas festas do Santo Cristo
Hoje 19:42
— Lusa/AO online
José Valério do Rego,
residente na freguesia da Matriz, no concelho da Ribeira Grande, é
rebuçadeiro há mais de 60 anos e anualmente desloca-se a Ponta Delgada
para vender os rebuçados tradicionais que faz a partir de uma mistura de
água e açúcar.Ajudado pelos filhos,
montou uma pequena banca coberta com um guarda-sol no Campo de São
Francisco, onde decorrem as festividades, e é lá que vende aos
peregrinos sacos de rebuçados tradicionais enrolados em papel vegetal
(com 12 e 24 unidades) e um rebuçado de maiores dimensões (espécie de
chupa-chupa) com formato de galo ou estrela.Os
rebuçados de duas cores - amarelo e rosa - já só são vendidos pelo
rebuçadeiro nas Festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres e na Feira
Quinhentista da Ribeira Grande, mas lembra que antigamente “corria as
freguesias todas” de São Miguel.O homem
contou hoje à agência Lusa que confecionar e vender rebuçados típicos
sempre foi a sua vida, mas queixa-se que a atividade “dá muito trabalho”
e a massa, quando é moldada, fere as mãos, porque “está muito quente”.“Os
meus rapazes [filhos] não querem saber nada disto porque dizem que [a
massa dos rebuçados] está muito quente nas mãos e esfola-as. E, quando
eu morrer, isto acaba tudo, porque os meus rapazes não querem”, referiu.Assegurou
que é o “último rebuçadeiro tradicional de São Miguel” e quando morrer
“acaba tudo”, para sua tristeza, por na família não ter seguidores.Contou
que aprendeu a fazer rebuçados com o pai e que, para além das festas,
também os costuma vender em casa a emigrantes açorianos que os levam
“para o Canadá e para a América”.A feitura
dos rebuçados “dá muita volta” e na sua confeção apenas entram açúcar e
água. A massa açucarada leva “umas 50 ou 60 voltas, sempre a quente,
porque é tudo feito ao lume e sempre à mão”. Os rebuçados com formato de
galo e estrela são feitos numa forma apropriada e levam um pequeno pau
para os consumidores lhes pegarem.Atualmente costuma fazer “uns 10 quilos de açúcar de cada vez”, mas revela que “antigamente fazia mais”.De
uma maneira geral, segundo José Valério do Rego, as crianças compram
mais “os galinhos e as estrelinhas, mas também gostam dos rebuçadinhos”.
“O meu rebuçado é de todo o mundo e é a
coisa mais linda do mundo”, garantiu o homem, que este ano se queixou de
ter vendido menos que o habitual nas Festas do Santo Cristo “por causa
do tempo que esteve ruim”.O rebuçadeiro
vendeu este ano os rebuçados com formatos de galo e de estrela a 1,5
euros a unidade e os sacos de rebuçados enrolados em papel vegetal a 5
euros (24 unidades) e a 2,5 euros (12 unidades).À
Lusa, alguns compradores dos rebuçados confecionados pelo rebuçadeiro
mais antigo da ilha de São Miguel não pouparam nos elogios à guloseima
tradicional.“Compro estes rebuçados todos os anos e são muitos bons”, garantiu Ruben Arruda, morador no concelho da Ribeira Grande.Ao
seu lado, a mulher, Ana Arruda, de 53 anos, consentia que os rebuçados
confecionados pelo conterrâneo “são muito macios e são muito bons e
saborosos”, assumindo que “são os melhores de cá [de São Miguel]”.Também
Clara, de 18 anos, que reside em São Miguel, na Freguesia dos Arrifes,
concelho de Ponta Delgada, disse que nas festas “compra todos os anos os
famosos galinhos, que são especiais”.“Já
compro rebuçados a este senhor desde miúdo. Têm um sabor especial, são
rijos e não são farinhentos”, contou, por sua vez, Carlos Aguiar, de 65
anos, residente em Ponta Delgada.No
recinto do Santuário do Santo Cristo dos Milagres para além de José
Valério do Rego - que também vende tremoços ao copo - , marcaram este
ano presença outros vendedores de rebuçados, pipocas, gelados, algodão
doce, gomas, tremoços, brinquedos e balões, entre outros.As
festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres - consideradas a segunda
maior manifestação religiosa do país depois das peregrinações a Fátima
-, decorrem até quinta-feira e tiveram no fim de semana o seu ponto
alto.Os festejos, que têm por referência a
imagem do "Ecce Homo", realizam-se no quinto domingo a seguir à Páscoa e
levam anualmente até São Miguel milhares de peregrinos oriundos das
nove ilhas dos Açores, do continente, dos Estados Unidos da América e do
Canadá.As celebrações deste ano foram
presididas pelo cardeal António Marto, bispo emérito da diocese de
Leiria-Fátima, e contaram também com a presença do núncio apostólico em
Portugal, Andrés Carrascosa Coso.