Parte fundamental da
‘Nouvelle Vague’ francesa, movimento que revolucionou o cinema a partir
dos anos 1950, Godard tem uma longa carreira premiada, que vai desde o
galardão de melhor realizador, em Berlim, logo por “O Acossado”, até um
Óscar honorário, entregue em 2010 numa cerimónia à qual não compareceu.Autor
de obras influentes para várias gerações de realizadores, como “O
Desprezo” (1963), com Brigitte Bardot, “Bando à Parte” (1964), “Pedro, o
Louco” (1965) ou os mais recentes “Filme Socialismo” (2010) e “Adeus à
Linguagem” (2014), Jean-Luc Godard ficou conhecido “pelo seu estilo de
filmar iconoclasta, aparentemente improvisado, bem como pelo seu
inflexível radicalismo”, como recorda o jornal The Guardian no obituário
do cineasta. Realizadores como o
norte-americano Quentin Tarantino, que chegou a ser cofundador de uma
produtora intitulada “Bando à Parte”, referiram-se a Godard como um
“libertador”: “Para mim, Godard fez aos filmes aquilo que Bob Dylan fez à
música. Ambos revolucionaram as suas formas”, disse Tarantino, numa
entrevista de 1994 com a Film Comment.Controverso
em termos políticos e artísticos, a sua obra estava longe de consensual
no meio: por exemplo, Paula Rego detestava o seu trabalho e Ingmar
Bergman dizia-se incapaz de compreender os seus filmes, uma vez que os
considerava “feitos para críticos”.O texto
do Libération sobre Godard abre com uma citação do português Manoel de
Oliveira (1908-2015), com quem Godard dialogava em abundância, que dizia
que o cinema do autor de “O Maoista” “é a saturação de signos
magníficos que se banham à luz da sua falta de explicação”.Nascido
em Paris, em 1930, Godard passou os primeiros anos da sua formação na
Suíça, tendo estudado Etnologia na Sorbonne, em Paris, onde “conversas
de café com estudantes e um trabalho manual numa barragem” constituíram
grande parte da sua aprendizagem, que inspirou a primeira
curta-metragem, “Opération Béton”, de 1954, lembra a biografia
disponível na Enciclopédia Britânica.Os
estudos em Etnologia vieram a entroncar no trabalho de Jean Rouch, que
estava precisamente a misturar a área da antropologia com o cinema num
estilo designado ‘cinema vérite’. “Ele
começou a escrever sobre os filmes que via na [revista] 'Cahiers du
Cinema' e formou alianças com artistas que se tornariam no núcleo da
Nova Vaga francesa. Embora moldada a partir dos filmes de ‘gangsters’ de
Hollywood, a estreia de Godard, ‘O Acossado’, desafiou as convenções do
cinema e espantou críticos, cineastas e públicos com o seu estilo de
improviso, trabalho de câmara ‘handheld’ impulsivo e saltos
intencionais”, pode ler-se na biografia disponível na página da Academia
de Artes e Ciências Cinematográficas.Godard
esteve na criação de um coletivo intitulado Dziga Vertov, que, mais do
que produzir “filmes políticos”, radicais em termos estéticos, tinha o
propósito de “fazer filmes politicamente”, o que impunha a perspetiva em
“todo o processo", da produção à rodagem, citava a Cinemateca
Portuguesa, na apresentação de um ciclo sobre o grupo, em 2018.As
reações à morte de Godard não se fizeram esperar: o britânico Edgar
Wright escreveu, no Twitter, que, apesar de iconoclasta, o realizador
“reverenciava o sistema de Hollywood, já que, provavelmente, nenhum
outro cineasta inspirou tantas pessoas a pegar numa câmara e começar a
filmar”.A Cinemateca Francesa lembrou Godard através de uma frase: “O cinema não está ao abrigo do tempo. Ele é o abrigo do tempo”.