Rastreio nacional deteta sinais precoces de diabetes tipo 1 em uma em cada 300 crianças
7 de nov. de 2025, 11:29
— Lusa
O
rastreio pioneiro em Portugal, integrado no projeto europeu EDENT1FI,
foi realizado pela Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal
(APDP), através da campanha “O seu filho tem um dedo que adivinha”, e
envolveu 10.000 crianças entre os 3 e os 17 anos, que foram rastreadas
em escolas, eventos e coletividades infantojuvenis, centros de saúde e
hospitais de todo o país ao longo de quase 14 meses. Os
dados, apresentados hoje no 7º. Congresso Nacional da APDP, em Lisboa,
indicam que a prevalência da diabetes tipo 1 em estadio pré-clínico
(definido pela presença de dois ou mais anticorpos) foi de 0,33%, o que
significa que uma em cada 300 crianças rastreadas já está a desenvolver a
doença de forma silenciosa, antes do aparecimento de qualquer sintoma."Estes
resultados marcam uma mudança de paradigma na forma como abordamos a
diabetes tipo 1, principalmente porque desafiam a perceção comum de que a
DT1 é uma doença primariamente hereditária e inevitável", afirma o
diretor Clínico da APDP, João Raposo, citado em comunicado.João
Raposo salienta que, pela primeira vez, se conseguiu identificar em
Portugal, em larga escala, “crianças nos estadios muito iniciais da
doença, muito antes de apresentarem sintomas”.Segundo o especialista, “esta 'janela de oportunidade' é crítica”, sublinha o especialista.“Sabemos
que a maioria dos casos surge de forma esporádica. Um rastreio
populacional permite-nos identificar estas crianças, anos antes dos
primeiros sintomas e, mais importante, antes de complicações graves, e
potencialmente fatais, que infelizmente ainda marcam o diagnóstico de
muitas crianças", acrescenta Raquel Coelho, pediatra e coordenadora
médica do Departamento de Crianças e Jovens da APDP.As
conclusões do estudo destacam a importância do rastreio e diagnóstico
precoces, uma vez que a diabetes tipo 1 é uma doença autoimune crónica
em que o próprio sistema imunitário do corpo destrói progressivamente as
células produtoras de insulina. Este processo inicia-se anos antes dos
sintomas. “Ao identificar as crianças em
risco antes desta fase, é possível iniciar um acompanhamento médico e
educacional que previne as complicações agudas, melhora a gestão da
doença e reduz o enorme impacto clínico e psicossocial da doença na
criança e na sua família”, salienta a APDP.Segundo
a associação, as crianças identificadas em estadios precoces da DT1
através do rastreio foram integradas no programa de seguimento "EDENT1FI
FOLLOW", para receberem acompanhamento ajustado ao seu nível de risco,
educação terapêutica e apoio psicossocial, garantindo uma entrada muito
mais segura e controlada na vida com a doença.O
projeto EDENT1FI é uma colaboração europeia que envolve 28 parceiros de
13 países, incluindo instituições académicas, indústria e associações
de doentes. É apoiado pela Parceria
Conjunta da Iniciativa de Saúde Inovadora (IHI JU), pelo programa
Horizonte Europa da União Europeia e por outras organizações privadas e
filantrópicas. “Em Portugal, foi
implementada a iniciativa ‘O seu filho tem um dedo que adivinha’, que
atingiu com sucesso a sua meta de dez mil rastreios (inicialmente
definida para os quatro anos de duração da campanha) em apenas 14
meses”, salienta a APDP.