Ramos Horta não se candidata a cargo em Genebra
27 de jun. de 2008, 12:04
— Pedro Rosa Mendes, Lusa/AO online
“Foi um ‘faux-pas’”, admitiu esta sexta-feira José Ramos Horta na conferência de imprensa em que anunciou que fica em Díli e não se candidata a um cargo em Genebra.
José Ramos Horta foi, nas últimas semanas, um dos nomes da lista restrita e oficiosa de possíveis sucessores da canadiana Louise Arbour no Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH).
“Alguém um dia me telefonou de Nova Iorque ou de Washington e me perguntou ‘Are you interested?’ e eu, quase sem pensar e com muita leveza, disse que sim”, contou José Ramos Horta.
“Eu nem sequer devia ter colocado essa questão, mas estava no chuveiro”, justificou o Presidente da República, sorrindo, sobre a ligeireza da sua primeira resposta à ideia de ocupar o cargo máximo no ACNUDH.
Do lado norte-americano da linha, no entanto, não contou a intimidade do momento, contou a prontidão da resposta. O “sim” presidencial colocou em marcha “uma bola de neve”, na expressão do próprio José Ramos Horta.
“O meu nome esteve sempre lá”, disse também o Presidente da República, clarificando as dúvidas sobre a inclusão ou não do seu nome numa lista que o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, manteve secreta mas que foi sendo conhecida do mundo.
A “bola de neve” ganhou balanço da América do Norte para a Austrália e da Europa para a América do Sul. “Países grandes e países pequenos” apoiaram a candidatura sempre inexistente de José Ramos Horta a Genebra.
“Nunca pensei que (a ideia) ia ganhar credibilidade. Depois comecei a pensar, mas preocupando-me sempre com a situação no país”, referiu José Ramos Horta a uma sala cheia de jornalistas.
O chefe de Estado timorense salientou que os seus compromissos “não são apenas com o povo timorense, mas também com a comunidade internacional, com países como a Austrália, Portugal ou o Brasil e as Nações Unidas, que investiram muito em Timor-Leste e não veriam com bons olhos” o seu abandono do cargo com uma situação “ainda frágil” no país.
Confrontado pela Lusa com a existência de uma candidatura a Genebra, José Ramos Horta reconheceu a 20 de Maio, em Díli, durante as cerimónias do Dia da Independência, ter ouvido falar de uma lista de potenciais aspirantes ao cargo.
Um diplomata português, que estava próximo, comentou na ocasião que “é uma situação igual à de quando (o ex-primeiro-ministro português) Durão Barroso aceitou o lugar em Bruxelas” como presidente da Comissão Europeia.
“É claro, Durão Barroso não fazia tanta falta”, acrescentou o diplomata em rodapé, entre risos e salgadinhos.
Humor à parte, foi “a falta” que Ramos Horta faz ao país o principal argumento que o Presidente da República ouviu nas semanas seguintes.
“A qualquer timorense, primeiro é Timor e depois o mundo. Mas a decisão é do senhor Presidente”, resumiu o brigadeiro-general Taur Matan Ruak numa entrevista à Lusa.
“Ele não é um homem apenas de Timor, é sobretudo um homem com estatuto internacional. Ele sabe-o bem”, explicou Ruak, chefe do Estado-Maior-general das Falintil-Forças de Defesa de Timor-Leste (F-FDTL).
Outros amigos, líderes e titulares foram dando a José Ramos-Horta, segundo ele explicou hoje, o apoio céptico: “estamos consigo na decisão que tomar mas…”. Incluindo o Presidente Cavaco Silva em Lisboa e Durão Barroso em Bruxelas.
Ao mesmo tempo, a dimensão pessoal da escolha, e do “grande dilema” do Presidente, foi compreendida pela família mais próxima e os amigos de um homem que sofreu um ataque brutal e quase fatal a 11 de Fevereiro.
“Só quem levou três tiros no corpo é que sabe”, dizia, quinta-feira, um assessor da Presidência, nas longas horas da reunião entre José Ramos-Horta e o primeiro-ministro timorense, Xanana Gusmão, no Bairro do Farol.
Xanana Gusmão, no final da reunião, afirmou à imprensa que apoiaria a candidatura de José Ramo Horta “como amigo”. Mas na reunião a dois, explicou longamente que o actual chefe de Estado é “o único que consegue unir os timorenses”, contou o Presidente.
Foi a falta de unidade que estacou, afinal, o longo “faux-pas” iniciado no chuveiro. Ramos Horta deixou claro que a distância que vai entre Díli e Genebra é, no seu caso, medida na falta de unidade política entre Governo e oposição.
A solução proposta por Ramos Horta era a escolha de um novo Presidente da República no Parlamento, sem eleições antecipadas, mas “os sinais, porém, não apontavam para aí”.
O Nobel da Paz timorense teria avançado para Genebra “se houvesse garantias de um grande ‘modus vivendi’, de grande coexistência entre a Fretilin e o Governo” após a sua saída. Não há.
Sem prometer que cumpre o mandato de cinco anos — pode ser “atropelado amanhã por um dos condutores loucos daqui ou (cair) num dos perigosos helicópteros da ONU” —, José Ramos Horta fica, por enquanto, no seu gabinete da Presidência, com vista para a Ilha de Ataúro.
A hipótese de se candidatar à sucessão de Ban Ki-moon, em 2012, não foi fechada. Talvez, pelo contrário, tenha sido potenciada, segundo um dos seus conselheiros internacionais.
“Não vejo que o cargo em Genebra seja o que melhor serve as ambições para mais altos voos, que o Presidente continua a ter”, dizia à Lusa há poucos dias um responsável internacional que conhece José Ramos Horta há muitos anos.
“O que melhor serve esse sonho é um desempenho eficaz como chefe de Estado, concluindo a transição da crise de 2006”, acrescentou.
O “faux-pas” acabou quinta-feira, com a impossibilidade de um pacto de regime entre a aliança no poder e a Fretilin. Presidente e primeiro-ministro apareceram ainda enigmáticos, mas tranquilos, aos jornalistas. José Ramos-Horta, resignado à função de garante da estabilidade.