Rabo de Peixe espera que série da Netflix mude imagem da vila
25 de mai. de 2023, 07:51
— Lusa/AO Online
Ao início da noite, dezenas de
pessoas estavam concentradas à porta do Teatro Ribeiragrandense, no
centro da cidade da Ribeira Grande, à espera da antestreia da série
“Rabo de Peixe”, de Augusto Fraga, produzida pela Ukbar Filmes, e um dos
dez projetos vencedores de um concurso de argumento promovido pela
Netflix com o Instituto do Cinema e do Audiovisual.“Vieste
à festa?”, ouvia-se, por entre a multidão, onde a comunidade de Rabo de
Peixe se misturava com representantes políticos, responsáveis de
instituições regionais, atores e membros da produção.Depois
de confirmado o nome na lista de convidados, as pessoas entraram e
ocuparam todos os 287 lugares do teatro. Lotação esgotada.O
“boa noite” tímido do ator José Condessa, que entrou na sala juntamente
com a secretária dos Assuntos Culturais do Governo dos Açores, foi
abafado pelos ruidosos aplausos da sala.Antes
da exibição, o presidente da Câmara da Ribeira Grande, Alexandre
Gaudêncio, subiu ao palco para expressar um desejo corroborado pela
comunidade de Rabo de Peixe, a maior freguesia do concelho da costa
norte da ilha de São Miguel: “Isso vai ser a reviravolta para Rabo de
Peixe”.Luzes apagadas e o burburinho
ansioso deu lugar ao silêncio, com o início da sessão. O primeiro
episódio foi seguido atentamente, provocando um coro de gargalhadas cada
vez que surgiam expressões típicas do calão micaelense.No
final, um longo e entusiasmado aplauso espelharam a receção positiva do
público, expressa pelo sentimento do presidente da Junta de Freguesia
de Rabo de Peixe, que reconheceu sair da sessão “mais tranquilo”.“Aquilo
que era a preocupação de todos os rabo-peixenses, e minha enquanto
autarca, era a de não denegrir a imagem da vila. Todos nós sabemos
quanto a realidade muitas vezes não é aquilo que parece. Ainda não vimos
o resto, mas por aquilo que podemos assistir, acredito que as pessoas
vão olhar para a série de maneira diferente”, afirmou Jaime Vieira à
agência Lusa.A série, ao inspirar-se no
desembarque de meia tonelada cocaína ao largo dos Açores em 2001,
dividiu a comunidade local, que temeu os impactos da produção na
perpetuação de um estigma em torno de Rabo de Peixe.Depois
de ver o episódio inaugural, o presidente de junta considerou que a
série transmite uma “mensagem forte para que os jovens” se “desviem do
caminho mais fácil” da droga.“Depois de
ver o primeiro episódio, a mensagem que quero transmitir é da
importância que esta série dá no sentido de prevenir os mais jovens de
que o caminho não é a droga. Apesar da facilidade que possa
corresponder, o caminho não é esse. Esta série demonstra isto mesmo”,
vincou.Para o autarca, a freguesia tem de
“tirar partido” da produção para fazer com que as pessoas visitem Rabo
de Peixe pela “sinceridade, humildade e pelo saber acolher das suas
gentes”.“Aquilo que nós temíamos, pelo
primeiro episódio, não veio acontecer. Esperemos que isso seja uma
reviravolta e um volte-face. Que isto seja um motivo de grande impulso
para a vila crescer”, assinalou.Também
Álvaro Cabral, rabo-peixense, disse acreditar que a série vai ser
positiva para a freguesia e realçou o envolvimento da equipa com a
população. No seu caso, ficou amigo do ator José Condessa.“Gostei
muito do primeiro episódio. Isso vai ser bom para a imagem da vila. Eu
estive lá com eles a mostrar o meu barco. Fui à Vila Franca com o Zé e
levei o Zé a comer à minha casa. Eu e a minha esposa já temos uma
relação de confiança com ele”, explicou.O
filho de Inês Lopes, de 11 anos, entrou na série. A mãe disse acreditar
que a produção vai dar “reconhecimento internacional” aos Açores.“Eu
achei que isto podia causar alguns incómodos, mas num contexto de
história e de mitos, acaba por ser uma mais-valia para a nossa ilha.
Rabo de Peixe é uma vila encantadora, com pessoal muito trabalhador.
Eles estão todos de parabéns porque é o povo da nossa terra”, afirmou.A
tomar pelas reações na antestreia, todos pareceram satisfeitos com o
resultado final. Laura Melissa, natural da Ribeira Grande, defendeu que o
primeiro episódio dá uma “boa perspetiva” sobre “as virtudes” do povo
de Rabo de Peixe.“As pessoas têm de ver
que isto não é um retrato da realidade, mas sim uma ficção. Não se pode
associar ao estereótipo do povo de Rabo de Peixe. As pessoas têm de ter
mente aberta ao ver a série e não tirar falsas conclusões”, destacou.Também
a jovem ribeira-grandense Ana Lima disse acreditar que a produção vai
permitir “trazer ao de cima a riqueza” da vila piscatória.“As
pessoas ao verem esta série vão olhar para Rabo de Peixe com outros
olhos e perceber as fragilidades, mas sobretudo a riqueza deste povo”.Após
a exibição, o realizador Augusto Fraga, açoriano, subiu a palco para
evocar as suas lembranças da ilha, acompanhado pelo ator José Condessa,
que chamou Ivan e Jaime, duas crianças da freguesia, as “primeiras
pessoas” que viu em Rabo de Peixe.“Foram
as primeiras pessoas que vi. Estavam com uma bola de futebol debaixo do
braço. Jogamos futebol juntos e ficamos amigos”, explicou.A
antestreia terminou com o músico Romeu Bairos a tocar viola da terra e a
cantar as “Ilhas de Bruma”, uma espécie de hino dos Açores, e uma
música de Sandro G que se tornou um ícone de Rabo de Peixe. E, uns num
tom mais alto, outros num registo confessional, ouviu-se uma plateia a
entoar: “Eu não vou chorar. Esta vida não era para mim”.