“Quero sentir que lutei pelos meus valores e que contribuí para um mundo melhor”
25 de jan. de 2026, 09:00
— Ana Carvalho Melo
Sofia Caetano guarda da infância e adolescência a memória nítida de um quotidiano afetuoso e cheio de movimento, que hoje reconhece como fundacional na forma como olha a família, a arte e o mundo. "Tive o privilégio de ter uma infância e adolescência felizes", afirma, sublinhando que esse período foi marcado por uma sensação de pertença e de liberdade que tenta, agora, devolver aos filhos e aos projetos culturais que lidera.Entre as recordações mais queridas estão os jantares em casa dos avós, onde se reunia “toda a família” e onde o barulho era sinónimo de alegria. A artista assume essa dimensão sonora como parte da sua identidade: "Eu adoro barulho, festa, energia, e esses ajuntamentos semanais fizeram com que hoje em dia tenha uma conceção muito forte do conceito de família.Outra das suas memórias vem do mar e das aventuras de verão. "Também importantes foram os verões passados na Praia do Porto Formoso, com amigos. Passávamos os dias mergulhados nas ondas grandes e as noites na rua, a brincar. Quando estava mau tempo fazíamos cabanas na praia ou a minha mãe levava-nos a tomar banho à piscina do Parque Terra Nostra", recorda.Esse equilíbrio entre aventura e cuidado marca a forma como Sofia Caetano pensa hoje a infância: um espaço de descoberta, mas também de segurança, que mais tarde pesaria na decisão de regressar aos Açores para criar os filhos "numa infância saudável e tranquila, assim como a que eu tive".Desde muito cedo, Sofia sentiu um impulso irreprimível para a performance e a invenção. "Sempre fui extrovertida - o meu pai dizia, quando era pequena, que eu fazia muitas “macacadas”. Em casa, organizava espetáculos improvisados: "Preparava espetáculos caseiros, teatro, desenho, poesia", experiências que funcionavam como laboratório íntimo para a sua futura prática artística.Nesse contexto familiar alargado, surgem também figuras de incentivo determinantes. "O Tó Canotilho e a Gaby Porto, nossos amigos, sempre elogiaram muito as produções que preparava para eles, e isso foi importante na construção da minha autoconfiança enquanto pessoa criativa".A passagem pelo 3.º ciclo trouxe um encontro que viria a orientar o percurso académico e profissional. "No 3º ciclo tive a sorte de ter como professora a artista Sofia Brito, e as suas aulas e as nossas interações contribuíram também para que depois optasse por ir estudar artes no 10º ano". Na sala de aula, a criatividade ganhou estrutura e linguagem, abrindo caminho à decisão de seguir Artes e, mais tarde, à licenciatura em Belas-Artes, em Lisboa.A saída de São Miguel aos 18 anos marcaria uma viragem decisiva na vida de Sofia Caetano, mas o fio condutor continua a ser o mesmo que nasce na infância: a procura de liberdade, pertença e espaço para criar. "Aos 18 anos deixei a ilha com aquele sentimento de querer ser “independente” e ir para Lisboa viver com as amigas e estudar. Nem sequer sabia se algum dia iria querer voltar para São Miguel", recorda, sublinhando como a distância da família e a vida numa grande cidade a fizeram crescer e assumir-se como adulta.Na Faculdade de Belas-Artes, em Lisboa, Sofia Caetano confrontou-se com uma ideia de arte mais ampla do que aquela que trazia do secundário. Nesse contexto, descobre linguagens que iriam marcar o seu percurso: "Interessei-me especialmente por fotografia e vídeo. Por isso, quando terminei o curso, fui estudar cinema e fotografia em escolas profissionais. E apaixonei-me pelo cinema".A passagem por Lisboa coincidiu com um período de crise económica em Portugal, que dificultou a entrada no mercado de trabalho. "Entretanto tinha estagiado na revista Visão como fotógrafa, mas Portugal estava em crise e não havia emprego na minha área", lembra. Esse impasse, aliado ao incentivo do pai - "o meu pai tinha-me sempre encorajado a ir para os Estados Unidos" - acabaria por abrir o caminho seguinte: o mestrado em cinema, nos Estados Unidos, onde Sofia Caetano encontrou um ambiente de grande liberdade formal e acesso facilitado a meios de produção audiovisual. "Tive o privilégio, graças ao apoio dos meus pais, de poder sonhar alto, sem limites. Experimentei imenso durante o mestrado, era muito fácil ter equipamento e equipa para fazer cinema, porque a escola proporcionava isso, fazia muitos filmes loucos, e isso permitiu-me ver, com mais clareza, a minha identidade criativa, e estar confortável, ser eu própria", conta, explicando que a convivência com outras culturas e perspetivas a tornou "mais autoconsciente" e reforçou a vontade de fazer uma arte que dialoga com o presente.Entre os momentos marcantes desse período está a estreia de “BLISS”, filme de tese de mestrado, no Ann Arbor Film Festival, nos Estados Unidos, em 2016. "Foi incrível e assustador ao mesmo tempo ver o meu filme num ecrã gigante com uma sala cheia de gente. Foi fantástico fazer parte do festival, conhecer outros realizadores, ver imensos filmes interessantes, e perceber como é que os festivais de cinema são tão importantes para as comunidades onde eles acontecem e também para os profissionais da área", conta. Depois de 17 anos fora, a experiência nos EUA também evidenciou fragilidades sociais que pesaram na decisão de voltar. "Criar crianças nos Estados Unidos seria claramente impensável, considerando que todas as semanas haviam notícias de tiroteios nas escolas. Então na pandemia, decidi voltar para os Açores, para poder proporcionar aos meus filhos uma infância saudável e tranquila, assim como a que eu tive", explica.Uma das primeiras iniciativas depois de regressar foi precisamente reconectar-se com o território, através do projeto “Quimera”, “uma caminhada pedestre multimédia sobre a história e a cultura dos Açores, porque senti que precisava de me reconectar com a identidade açoriana. Infelizmente não aprendemos muitas coisas sobre os Açores na escola". Durante quase um ano investigou "múltiplos aspetos do nosso território" e concluiu, com ainda maior clareza, a riqueza cultural do arquipélago.Hoje, Sofia Caetano reparte-se entre a prática artística e a criação de estruturas culturais que ligam cinema, natureza e comunidade. "Atualmente, para além de manter a minha prática artística como realizadora e artista visual, sou diretora de um festival de cinema, o Azorean International Film Festival e da Floresta Cultural". O Azorean International Film Festival, cuja primeira edição decorreu em 2024 no Teatro Micaelense, surgiu com o objetivo de aproximar o cinema açoriano do panorama internacional e de criar novas oportunidades para cineastas locais e convidados.Ao mesmo tempo, prepara a estreia da sua primeira longa-metragem, "que “apenas” demorou 10 anos a produzir", um musical sci-fi (ficção científica) intitulado “O Homem Mais Feliz". Em paralelo, desenvolve a Floresta Cultural, "um projeto que está a ser desenvolvido num trilho pedestre que se situa numa escoada lávica de um vulcão", onde se criam e apresentam experiências artísticas e onde será inaugurado um micro-cinema no meio da floresta. Ao olhar para o percurso que a levou de São Miguel a Lisboa, depois aos Estados Unidos, e de volta ao arquipélago, Sofia Caetano resume a ambição que atravessa todas estas etapas: "Um dia gostaria de olhar para o meu percurso e sentir que lutei por aquilo em que acredito, e que fiz o meu melhor para contribuir de alguma forma, por mais pequena que ela tenha sido, para inspirar a criação de um mundo melhor – pelo futuro dos meus filhos, netos, bisnetos".