“Quero fazer mais e melhor, com o lema de estar sempre a aprender, com humildade e respeito”

31 de mai. de 2026, 08:00 — Susete Rodrigues

“Graças a Deus tive a educação suficiente para ser o que sou hoje. Os meus pais conseguiram dar-me esta educação, é um orgulho poder também transmitir isso. É um legado que me deixa bastante valioso”, é assim que José Raimundo começa por descrever a sua infância. Enaltecendo os valores sólidos transmitidos pela família, diz-nos que teve uma “infância feliz”.Entre a escola e as brincadeiras, o desporto começou cedo a ganhar espaço na sua vida. Futebol, basquetebol, andebol e patinagem fizeram parte do seu percurso, mas foi nesta última que encontrou a sua verdadeira paixão e onde viria a tornar-se em uma das figuras mais reconhecidas da patinagem açoriana e nacional. Entrou para a patinagem aos 10 anos, no Clube de Patinagem de Santa Cruz, na Lagoa, numa altura em que a modalidade começava a afirmar-se nos Açores. Enquanto atleta, alcançou resultados importantes, destacando-se o título de vice-campeão nacional, o “ponto mais alto da minha carreira”. No entanto, uma grave lesão no joelho acabaria por “me possibilitar, por completo, dar continuidade à prática desportiva, que era realmente uma paixão e algo que fazia com muito gosto”. José Raimundo poderia ter seguido outro caminho, fora do desporto, mas longe de abandonar, principalmente a sua modalidade de coração, decidiu reinventar-se dentro da patinagem. “Fui juiz de patinagem artística, treinador” e, mais tarde, dirigente associativo. Foi precisamente nessa fase que nasceu o gosto pelo dirigismo desportivo e pela construção de projetos coletivos. Conta-nos que a sua entrada na “Associação de Patinagem de Ponta Delgada deu-me uma bagagem muito grande. É aí que aparece o interesse pelo dirigismo desportivo”.Durante 15 anos presidiu à associação, e “muitas coisas boas aconteceram”, a começar pela alteração do nome de Associação de Patinagem de Ponta da Delgada, para a Associação de Patinagem de São Miguel, porque “vários concelhos já estavam na prática desportiva e sentimos essa necessidade de alargar e de dar mais pujança àquilo que era a instituição”.Quando iniciou funções existiam apenas quatro clubes e cerca de 200 atletas, “passámos a ser 12 clubes em São Miguel e perto de 800 atletas”. Uma das primeiras medidas implementadas passou pelo apoio direto aos clubes. “No valor das inscrições, dávamos 50% daquilo que era o custo da inscrição. Foi uma ajuda complementar porque patinagem é um desporto caro (...)”, referiu. Defende que as “instituições fazem-se com pessoas e para as pessoas” e “sempre tivemos a política de unir os clubes. Esta sempre foi a minha principal função e, de alguma forma, sinto-me orgulhoso porque consigo fazer isso”.Ao longo dos anos, a associação organizou algumas das maiores competições de patinagem realizadas nos Açores. José Raimundo destaca a Taça de Portugal de Patinagem Artística, que contou com mais de 260 atletas; o Torneio Inter-Regiões e o Campeonato da Europa de Patinagem Artística, “foi o momento maior da patinagem artística açoriana. Uma prova que foi organizada com classe e ainda hoje se fala, a nível internacional, nesta competição (...)”.  A experiência e o trabalho desenvolvido levaram José Raimundo até à Federação de Patinagem de Portugal, onde integra a direção há seis anos. Recorda-nos que começou como vice-presidente numa das fases mais difíceis do desporto, ou seja, “durante a pandemia da Covid-19. Foi um período que obrigou a decisões complexas, mas que se aprendeu bastante, e valorizo muito isso, porque gosto de trabalhar por objetivos”. Atualmente, exerce funções de presidente-adjunto da Federação e destaca com orgulho o crescimento da modalidade em Portugal. A patinagem artística passou de cerca de cinco mil atletas para mais de 12 mil praticantes, enquanto a Federação ultrapassa os 20 mil atletas no conjunto das suas disciplinas. Realça que “é bastante positivo para a nossa Federação e para a equipa liderada pelo professor Luís Sénica, que tem feito um trabalho excecional”. A sua presença na Federação Portuguesa de Patinagem abriu-lhe novas portas. José Raimundo foi convidado para integrar a World Skate Europe, organismo responsável pela regulamentação e organização da patinagem europeia, o que também lhe deixa muito orgulhoso: “Qualquer açoriano ficaria orgulhoso por ver um açoriano de gema chegar a este nível”, afirma. Por ter estado ligado a projetos associados à ética no desporto, “fui convidado e indicado pela Federação para ser Embaixador da Ética no Desporto, algo que muito me orgulha e que fico, sinceramente, muito grato e feliz, por conseguir contribuir para esta causa difícil que é promover os valores éticos no desporto”, salientou para sublinhar que, “de alguma forma tudo começa no berço, e por isso, quero agradecer sempre os meus pais por aquilo que me ensinaram”.Reconhece que os Açores continuam a enfrentar dificuldades ao nível das infraestruturas desportivas. A falta de pavilhões adequados limita o crescimento das modalidades e reduz as condições de treino dos atletas. “Acho que é importante abrir a mente no sentido de se criar condições para valorizar os técnicos, dar condições para formar os técnicos, para terem outras experiências que possam contribuir para um desenvolvimento diferente e um aperfeiçoamento daquilo que é o desporto na sua essência”, disse, para acrescentar que “noto isso por mim, porque - enquanto dirigente da federação - tenho hoje outro tipo de ferramentas e é preciso sairmos daqui, é preciso trabalhar naquilo que são essas ferramentas de formação (...)”. Mas “temos que ter orgulho nos Açores e tentar sempre arranjar as melhores condições para estarmos no mais alto nível ou tentar chegar ao mais alto nível”. Desta forma, recorda frequentemente uma frase do padre José Francisco Pires, fundador do Clube de Patinagem de Santa Cruz: ‘Nós somos os melhores do mundo, basta acreditar’, “é verdade, somos os melhores do mundo, se quisermos. Temos é que acreditar (...)”.Conciliar as responsabilidades federativas com a vida profissional e familiar nem sempre é fácil. As viagens constantes entre os Açores e o continente representam um enorme desgaste, mas garante que tudo se torna mais leve graças ao apoio incondicional da família. Por isso, deixa um elogio à esposa: “Tenho uma santa mulher porque compreende e sabe que estou a fazer aquilo que gosto. Mas não é fácil, é preciso gostar-se muito daquilo que se está a fazer para continuar dia a dia a trilhar este caminho”. José Raimundo olha para o seu percurso com orgulho, com humildade, mas também com a consciência de que o trabalho nunca está terminado. “Já cheguei muito longe. Nunca imaginei chegar aqui”, confessa, sublinhando que o seu principal objetivo é “não desiludir, fazer sempre mais e melhor, com o lema de estar sempre a aprender, com humildade e com respeito por todos (...)”.O carinho do público é outro dos aspetos que valoriza. José Raimundo garante sentir-se muito acarinhado. “Estou sempre disponível para toda a gente, seja lá qual for o cargo ou até mesmo os pais que me abordam nos campeonatos. Independentemente disso, também tenho a política de responder, de forma transparente e rigorosa, a tudo aquilo que me questionam, porque acho que as coisas têm que ser do conhecimento de todos”. Os artigos de opinião que escreve para o jornal Açoriano Oriental têm reforçado essa ligação com o público. Conta que é frequentemente abordado por leitores que lhe falam sobre os textos publicados, alguns dos quais chegam a ser guardados e enviados a familiares fora da região. “São gestos que mostram que vale a pena todo este percurso”.