“Quero envelhecer com sabedoria e morrer com dignidade”

24 de mai. de 2026, 08:00 — Susete Rodrigues

Nascido em Carpina e criado em Goiana, Wellington Nascimento encontrou na música, não apenas uma profissão, mas um caminho de vida. Falar da sua infância é falar de música. Filho de militar, cresceu numa família sem tradição musical, mas rodeado de instrumentos proporcionados pelo pai: “Não tem ninguém na minha família que seja músico. Só eu e meu irmão, o Maninho, que também vive cá. Talvez por isso, tomei gosto pela música e muito cedo comecei a estudar violão”, conta-nos. Foi nessa altura que iniciou uma relação profunda com a música. Por isso, afirma que “a música salvou a minha vida e, quando vim para Portugal, encarei a música como profissional”.A sua vinda para Portugal acontece em meados dos anos 90, porque um amigo de infância, Rosildo Oliveira, “preparava o lançamento de um disco em Portugal e precisava de músicos para formar banda”. Primeiro convidou o irmão de Wellington,  Maninho, e depois “chamou-me para integrar o projeto como guitarrista” e estiveram em digressão quase dois anos. Depois “o Rosildo regressou ao Brasil, mas eu e o meu irmão decidimos permanecer em Portugal”, disse-nos. É também através da música que chega aos Açores. Recorda que o convite partiu de Carlos Presunça (já falecido), proprietário do antigo Xantarix, que viu-o atuar em Lisboa e convidou-o para tocar em Ponta Delgada, durante um mês. “Quando cheguei, apaixonei-me”, confessa-nos, explicando que, na ocasião, morava em Lisboa, “no início do Lumiar, mas mesmo assim, sentia a falta do mar, porque a minha cidade do Brasil é no litoral. Antes, tinha morado em Almeirim, e aí sentia-me ilhado por terra. Quando cheguei aqui vi mar em todos os lados e pensei: ‘É aqui que vou viver’”. Passado pouco tempo, o irmão juntou-se a ele. Depois veio a mulher, e quase 30 anos depois, Wellington Nascimento continua nos Açores. Foi cá que criou novas raízes e foi cá que conheceu uma nova paixão, a viola da terra. O primeiro contacto aconteceu em 1997, através do amigo Mário António. “Achei muito interessante, porque a viola da terra possui parcelas com três cordas e a viola nordestina, do Brasil, também tem uma parcela de três cordas. Ele emprestou-me essa viola, aprendi a tocar com alguma facilidade, porque a afinação não é muito diferente da afinação do violão e apaixonei-me pela viola da terra”. Licenciado em História, no Brasil, a curiosidade de Wellington Nascimento levou-o à investigação da viola da terra. O seu interesse cresceu, quando, por volta de 2003/04, o panorama musical açoriano começou a mudar. Conta-nos que “os bares tinham música ao vivo todos os dias e passei 10 anos vivendo como músico e, vivia com dignidade”. Mas, começaram a aparecer os “karaokes, os Dj e os bares começaram a diminuir a música ao vivo e fiquei num dilema...”. Foi nesse momento que decidiu reinventar-se: “fui para a Universidade dos Açores tirar a minha equivalência do curso. (...) Entrei no mundo da investigação, fiz uma tese de mestrado sobre a viola da terra e estou agora terminando a tese do doutoramento, também, sobre a viola da terra. Foi assim que nasceu esse amor e esse interesse pela viola da terra”, frisou. Para o investigador, a viola da terra é muito mais ampla e diversa. Adianta que “cada ilha tem uma especificidade, ocupa um espaço diferenciado. E o meu grande trabalho é mostrar que, neste momento, a viola da terra não é só aquilo de que falam - o coraçãozinho… Não, a viola da terra é algo muito maior e realmente une as pessoas”, sublinhou. Mais do que um instrumento musical, considera a viola da terra “o símbolo da identidade açoriana. A viola da terra está ligada ao sentimento açoriano”, defende. “Fiz um levantamento com quase 350 tocadores de viola da terra, em todo o arquipélago, e sem exagerar, em cada cinco entrevistas, um deles chorava”.Wellington Nascimento é autor do Caderno de Especificações Técnicas da certificação das Violas da Terra e, curiosamente, o seu trabalho na Direção Regional da Cultura permitiu-o aprofundar, ainda mais, o seu conhecimento pela viola da terra.Recorde-se que o processo de candidatura da viola da terra a Património Cultural e Imaterial está em fase de preparação pelo Governo Regional dos Açores. O investigador explica que estas são “candidaturas complexas, têm critérios muito rígidos”. Em 2023, “montamos uma equipa e tive a oportunidade de percorrer todas as ilhas e recolher testemunhos, fotografias e documentação. Tenho o maior acervo bibliográfico e digital da viola da terra”. Ora, o primeiro passo para esse processo de candidatura centrou-se nos saberes e práticas de tocar e o passo seguinte será o levantamento dos construtores e das técnicas utilizadas no fabrico da viola da terra. Segundo o Wellington Nascimento, pelo que tem observado, muitos construtores continuam a utilizar métodos antigos e materiais específicos dos Açores.Apesar da investigação ocupar grande parte do seu tempo, continua ligado à criação artística. Recentemente participou no espetáculo “Quando o Mar Galgou a Terra e algumas considerações”, de Eleonora Marinho Duarte, onde contribuiu musicalmente com a viola da terra. Ao longo esse tempo tocou com vários músicos açorianos, mantendo uma presença constante na vida cultural açoriana.Se voltasse atrás no tempo, “faria a mesma coisa”, porque “quando vim para cá pensava numa vida artística - que consegui durante muitos anos – mas me reinventei e estou muito satisfeito. Gosto muito do que faço - e isso é importante”. Por isso, diz que não se arrepende de ter deixado o Brasil, contudo, em jeito de reflexão, afirma que “o imigrante, independente da sua condição socioeconómica, dos motivos que o faz deixar o seu país,  nunca é fácil, porque o imigrante, torna-se um apátrida. No Brasil, sou português, no continente português sou açoriano e aqui sou eternamente brasileiro. Então, se for pela opinião dos outros, eu não sei o que eu sou... mas sei quem sou...(…)  Valeu a pena e faria tudo de novo porque sempre tive vontade de conhecer um pedacinho mais do mundo”. Questionado sobre o que gostava ainda de fazer, Wellington Nascimento responde: “Isso é uma pergunta muito séria... Não tenho nada hoje que eu queira fazer que nunca tenha feito. (...) Quero envelhecer com sabedoria e morrer com dignidade”.