“Queremos reforçar a presença na Região, tanto em meios tecnológicos como humanos”

19 de jul. de 2026, 10:34 — Ana Carvalho Melo

A Agência Lusa tem patente a exposição “40 Anos | 40 Fotografias”, produzida no âmbito das comemorações do 40.º aniversário da Agência Lusa, que pode ser visitada na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada até 30 de setembro. Como é celebrar 40 anos de uma agência de notícias num Portugal com 50 anos de democracia?A Lusa, na realidade, tem acompanhado a evolução da democracia. Estes 40 anos são uma pequena parte do desenvolvimento desta democracia. A Lusa, como agência, é até anterior ao 25 de Abril: vinha da agência de notícias Lusitânia, e havia outra em paralelo, a ANI, ainda do Estado Novo. Depois do 25 de Abril, foram liquidadas e surgiu a ANOP, mais relacionada com o Estado, e a NP, com tendências mais privadas ou comerciais. Fundiram-se em 1986.Na realidade, a Lusa tem acompanhado todos os momentos importantes de Portugal. Acompanhou a autonomia dos Açores - por isso estão aqui fotografias dos Açores, como homenagem aos 50 anos da autonomia constitucional. Estivemos presentes em vários momentos: prémios Nobel, incêndios, desastres ecológicos, manifestações, a entrada da Troika, e agora a Ucrânia. E esta exposição acompanha a evolução da sociedade portuguesa, sempre assente nos valores da Lusa.Esses valores não foram criados por este Conselho de Administração - já vinham definidos estatutariamente: a factualidade, a isenção, o rigor e, algo muito querido para mim, a confiança. Essa é a grande realidade da Lusa: a sua independência e a confiança que os parceiros e o sistema têm na nossa atividade, naquilo que produzimos. Gostamos de dizer: “se a Lusa deu, é que aconteceu.” Não podemos estar em todo o lado, mas o que fazemos é um trabalho rigoroso, importante para todo o ecossistema.Vivemos numa época com cada vez mais fontes de informação e menos financiamento para o jornalismo profissional. Como é que a Lusa se está a adaptar a este novo cenário, sobretudo depois da recente mudança na estrutura acionista?A Lusa também está a olhar para os novos tempos. O que eu quero, e não estarei aqui para os próximos 40 anos, é que a Lusa seja uma instituição ainda mais sólida, mais forte, com mais competências e capacidades.Estes 40 anos coincidem com uma mudança de estrutura organizacional. No ano passado, a Lusa foi adquirida a 100% pelo Estado. Tínhamos acionistas privados e essas participações foram adquiridas. Isto é importante porque tínhamos uma estrutura híbrida de capital, público e privado, que passou a ser 100% do Estado, com o objetivo de contrabalançar aquilo que os nossos factos representam contra o ruído existente: a desinformação, a enorme quantidade de fontes ligadas à nova economia em rede, em que toda a gente faz notícias e depois é preciso saber se são verdadeiras, credíveis ou não.Precisamos de criar uma Lusa com maiores capacidades e competências, não só para a Lusa, mas para as instituições democráticas e para os órgãos de comunicação social, nacionais e regionais.Voltando à mudança organizacional: existe um plano de ação para os meios de comunicação social, com várias etapas. Primeiro, a aquisição das participações minoritárias; depois, uma nova estrutura de governação, com novos órgãos sociais - o conselho consultivo, um novo conselho de administração com três executivos (o que não existia antes) - e novos estatutos. Depois há o plano de modernização de meios humanos e tecnológicos, ligado às competências. E há um ponto que vos diz muito respeito: o benefício para os órgãos de comunicação social, reforçando os serviços que a Lusa presta. A Lusa produz muitos conteúdos, mas muitas vezes não chegam a quem devia chegar. É como a água: temos água pura, mas falta-nos fazer com que essa água chegue aos meios de comunicação social que a devem divulgar.Há planos concretos para reforçar a presença e cobertura da Lusa nos Açores, tendo em conta também a importância da agência para a coesão nacional?Sim. Queremos reforçar a nossa presença nos Açores, não só com meios tecnológicos, mas antes disso com meios humanos. Queremos que a delegação, que já faz um excelente trabalho, tenha a possibilidade de fazer uma cobertura ainda maior.A polarização de factos noticiosos é uma realidade. No período da Covid, as coisas estavam um pouco amorfas porque só se falava de saúde. Depois da Covid veio um mundo muito diferente e estranho, com uma explosão de conteúdos noticiosos e diferentes formas de ver e atuar.Já reforçámos esta posição noutros locais, com a reabertura delegações que tínhamos fechado antes da Troika, como a de Évora. Mas também queremos dar melhores condições aos nossos profissionais para que trabalhem com dignidade.Tivemos um reforço de capital social, atribuído pelo Ministro das Finanças, precisamente para colmatar algumas lacunas que a Lusa tem sentido. No mundo futuro, penso que todos vamos ficar saturados de conteúdos não credíveis. E vamos refugiar-nos na credibilidade e na confiança. É como na alimentação: vamos comer só plástico, ou queremos o mais próximo da pureza e da realidade original? Por isso precisamos de capacitar, e os Açores têm necessidades que queremos começar a colmatar.A Lusa tem uma rede nacional forte, que pode ser ainda mais forte, e uma rede internacional forte, que também pode melhorar. Uma das grandes políticas de serviço público da Lusa é a questão da coesão e da inclusão. Queremos que a Lusa seja uma instituição inclusiva e não extrativa — este é um princípio de um Prémio Nobel de Economia — para que aquilo que se passa aqui possa chegar a todas as partes, e não só a Portugal.E para isso temos relações com várias redes internacionais. Por exemplo, uma fotografia tirada aqui hoje pode acabar na EPA (European Photo Association) e circular pelo mundo. E o inverso também acontece: recebemos conteúdo de coberturas como o Festival de Cinema de Veneza, através dessa associação. Isto mostra que precisamos de cooperação entre entidades, não de competição, porque somos todos pequenos, e juntos podemos ser maiores para lutar contra as grandes plataformas. Esta é a minha visão de gestor, não de jornalista, e funciona noutras indústrias e deve funcionar aqui também.Os Açores são uma parte muito importante disto, sobretudo pela questão da diáspora. Para o ano vão fazer 600 anos da descoberta, o que será um marco importante. E os açorianos estão por todo o lado; temos que chegar lá.Que outras iniciativas estão a decorrer, ou estão previstas, no âmbito das comemorações dos 40 anos da Lusa?Em São Miguel, na passada quarta-feira, houve um debate sobre a insularidade, moderado pelo jornalista Rui Pedro Paiva, em Ponta Delgada, que contou com a participação dos escritores João de Melo e Nuno Costa Santos, seguido da inauguração da exposição de fotografia “40 anos | 40 Fotografias”.Estamos a fazer, em paralelo, exposições noutros locais do país: já fizemos em Lisboa, atualmente está no Porto (Casa do Vinho Verde), vamos estar no Algarve - em Lagos, Tavira e Albufeira -, em Viseu, em Évora no âmbito da  Capital Europeia da Cultura do próximo ano, e em Coimbra (ainda não definido). Vamos voltar a Lisboa, provavelmente ao centro Comercial Colombo.O que queremos é sair da nossa sede e mostrar o que é a Lusa, e a importância de dar visibilidade ao seu trabalho - nós damos informação para todos. Mais uma vez, é uma questão de inclusão e proximidade. O serviço público faz-se de proximidade, e a coesão faz-se de proximidade. Se não soubermos o que se passa nos Açores, ficamos todos mais pobres - os Açores, o país e a própria democracia. Os Açores têm muito para dar e um grande dinamismo, e é importante que isso seja equilibrado.Temos também uma conferência sobre comunicação social marcada para 28 de setembro, na Gulbenkian, e haverá mais atividades e iniciativas.Esta exposição é algo que eu já pensava há algum tempo - não por gostar particularmente de fotografia, mas porque é uma pequena amostra do que a Lusa traduz. A Lusa produz, por ano, cerca de 40 mil fotografias. Esta exposição é um trabalho do editor multimédia da Direção de Informação, que fez a edição e a curadoria de tudo isto, a partir de uma base de dados muito densa.