Quatro amigos, 15 países e 50 dias à boleia para apoiar Portugal no Qatar
Mundial2022
24 de nov. de 2022, 12:15
— Marco Oliva/Lusa/AO Online
Enquanto
a seleção ‘afinava a máquina’ para a estreia no Mundial2022 no centro
de treinos de Al-Shahaniya, Daniel, Bruno e Duarte eram bravos
resistentes no exterior do recinto, à espera de poderem ver os jogadores
lusos e, finalmente, consumarem o objetivo que os tinha levado a fazer
8.000 quilómetros e a atravessar 15 países dentro do carro de perfeitos
desconhecidos.Francisco chegaria mais
tarde ao local, porque tinha ido “tratar de uma publicação” com desejo
de boa sorte a Cristiano Ronaldo, que queriam se tornasse viral.“Foi
uma viagem bastante longa, porque escolhemos a maneira mais difícil de
chegar aqui, que foi com o polegar levantado [sinal de pedido de boleia]
nas estradas, à espera que as pessoas nos dessem boleia até ao Qatar”,
disse Duarte Delgado à agência Lusa.A
viagem começou em 06 de outubro, numa estação de combustível da Segunda
Circular, em Lisboa, passou pela Guarda e iria levá-los até Salamanca,
mas, só de uma vez, foi até Toulouse, e logo com um prenúncio de que
iriam conseguir chegar ao Qatar: “O rapaz que nos deu boleia até
Toulouse chama-se Cristiano, por isso é um nome abençoado”.Portugal,
Espanha, França, Itália, Croácia, Macedónia do Norte, Albânia,
Montenegro, Bulgária, Turquia, Jordânia ou Arábia Saudita foram alguns
dos países por que passaram, dando ‘asas’ a um plano idealizado por
Daniel e Francisco, que gostam de ter “ideias mirabolantes”.“Esta
ideia surgiu entre mim e o Francisco, que temos um canal no Youtube.
Surgiu esta ideia de juntarmos o Mundial às boleias, que é algo que
ainda não é muito comum em Portugal. Decidimos vir de boleia até ao
Qatar para desejar sorte ao Ronaldo. Foi o querer apoiar a seleção em
pessoa e fazê-lo com a maior aventura e da forma que poderia ser a mais
económica (…), mas acaba por não ser, porque são 50 dias”, explicou
Daniel Estima, natural da freguesia de Macinhata do Vouga, em Aveiro.Sem
plano e na base do “improviso” se foi fazendo a viagem, cada um munido
da sua mochila e com um elemento crucial numa bagagem quando se pede
boleia na estrada: um cartaz, com a inscrição do destino: "Qatar". “Esteve
sempre dentro da minha mochila, porque só o utilizámos nos dois
primeiros dias. Agora, só falta mesmo que o Cristiano Ronaldo assine
este cartaz. Somos quatro e não vamos poder manter o cartaz entre nós.
Não vamos cortá-lo ao meio, nem vai andar em casa de cada um de semana
em semana. Gostávamos de doar este cartaz, que é algo simbólico, a uma
ONG [organização não-governamental] que trabalhe com refugiados. Foi
aquilo que mais nos marcou e acreditamos que alguém vai dar valor a este
cartaz”, partilhou o lisboeta Duarte Delgado. O
caminho chegou a ser "sinuoso", sobretudo “na fronteira entre a Europa e
a Ásia, nomeadamente na Bulgária e na Turquia”, explicou Duarte, por se
tratar “de uma zona de migrantes económicos, mas também dos refugiados
que vêm do Afeganistão e da Síria”.“Naquela
zona não existem muitas pessoas a pedir boleias, muito menos com
mochilas grandes como as nossas. Passámos por refugiados sírios e os
locais não estavam a querer ajudar-nos, não nos davam boleia. Ali, quem
ajudar refugiados pode apanhar até seis anos de prisão. A partir do
momento em que mostrávamos à polícia o nosso passaporte, tudo ficava
bem”, referiu Duarte.Sem boleia para sair
daquela zona, os quatro amigos ficaram “a dormir numa tenda de uns
habitantes locais no meio do mato”, quando "no lusco-fusco", ao final da
tarde, sentiram aquele que foi, provavelmente, o susto de uma vida.“Do
meio do nada, aparecem três civis armados e com cães, a pedirem para
sairmos da tenda, a tentarem perceber quem nós éramos. Achavam que
éramos refugiados”, prosseguiu Duarte, revelando que o passaporte
português foi o que lhes valeu: “Felizmente, como temos um passaporte
português, tudo acabou bem, mas ficámos a questionar o que teria
acontecido se não tivéssemos o nosso passaporte”.Com
bilhete garantido apenas para o primeiro encontro de Portugal, com o
Gana, hoje, os amigos ainda esperam “apanhar boleia de alguém para
dentro do estádio” do segundo encontro, com o Uruguai, na segunda-feira.E quando finalizarem o périplo, uma coisa é certa para o famalicense Bruno Carvalho: “O regresso é feito de avião”.Francisco
Albuquerque chegaria ao centro de Al-Shahaniya a tempo de assistir à
passagem do autocarro da seleção aquando da saída do centro de treinos,
já depois de ter divulgado a publicação que todos eles esperam se torne
viral. Juntamente com os três amigos, ainda viu Cristiano Ronaldo
acenar-lhes do interior da viatura.