Quase 250 mil crianças deportadas do Paquistão precisam de ajuda
18 de abr. de 2024, 18:26
— Lusa
Segundo
um inquérito realizado pela organização não-governamental (ONG), quase
todas (99%) as famílias que regressaram ao Afeganistão nos últimos meses
não têm comida suficiente para sobreviver e a maioria vive de ajuda de
familiares ou amigos.Cerca de 40% têm de
pedir comida pelo menos três dias por semana, enquanto 13% o fazem todos
os dias, de acordo com os mesmos dados.Todas
estas pessoas foram obrigadas a reduzir ou restringir o número de
porções de alimentos por dia, denuncia a Save The Children.A
organização estima ainda que aproximadamente uma em cada seis destas
famílias vive em tendas, com poucos ou nenhuns meios de subsistência, já
que apenas um terço conseguiu trazer alguns bens do Paquistão.“As
famílias regressam ao Afeganistão praticamente sem nada. O regresso de
tantas pessoas está a criar uma necessidade adicional de recursos já
sobrecarregados”, alerta o diretor da Save the Children no Afeganistão,
Arshad Malik, citado no documento.Por
outro lado, segundo quase metade (47%) dos inquiridos, não há trabalhos
disponíveis no Afeganistão e mais de oito em cada 10 pessoas que foram
obrigadas a regressar não têm qualificações que lhes permitam conseguir
um emprego.A educação é outra das questões
apontadas pela ONG que sublinha que quase dois terços (65%) das
crianças que regressaram ao Afeganistão não estão na escola.Embora
frequentassem a escola no Paquistão, a maioria (85%) afirma não ter os
documentos necessários para se matricular no Afeganistão. “Os
meninos e meninas afegãos precisam de apoio e estabilidade. Muitos dos
migrantes indocumentados nasceram no Paquistão. O Afeganistão não é o
lugar que consideram como o seu lar”, aponta o representante da ONG no
país.Mais de 520 mil afegãos, quase metade
dos quais menores de idade, deixaram o Paquistão, depois de o Governo
deste país anunciar, em outubro do ano passado, que os residentes
estrangeiros sem documentação teriam de partir voluntariamente num prazo
de um mês ou seriam deportados.Aproximadamente
uma em cada sete pessoas no Afeganistão vive fora da sua casa. O
relatório da Save the Children indica que o Afeganistão é o segundo país
do mundo com o maior número de pessoas deslocadas internamente. Quase
dois milhões de afegãos viviam no Paquistão depois de terem fugido do
regime repressivo do seu próprio país, mas a eleição de um novo Governo
em Islamabad deu início a uma campanha de expulsões, mesmo daqueles que
tinham sido incluídos em programas de ajuda.A
decisão é especialmente perigosa para as mulheres, os defensores de
direitos humanos e os antigos funcionários do Governo apoiado pelos
Estados Unidos, que, ao serem deportados, ficam à mercê dos talibãs,
regressados ao poder do Afeganistão em agosto de 2021.O plano de expulsões de Islamabad deverá ter nova fase agendada para agora.Um
responsável do Ministério do Interior do Paquistão, citado pela agência
de notícias espanhola EFE sob condição de anonimato, adiantou que as
autoridades estão a trabalhar numa segunda fase do programa, cujo início
estava programado para 15 de abril (segunda-feira passada), após o
final do Ramadão, o mês sagrado para os muçulmanos de todo o mundo.O
Paquistão é um dos países que mais acolhem refugiados no mundo, na sua
grande maioria afegãos que fogem de guerras no seu país há quatro
décadas.Segundo os últimos dados da ONU,
estão registados no Paquistão aproximadamente 1,3 milhões de refugiados
afegãos, mas as autoridades paquistanesas estimam em 1,7 milhões os
afegãos que vivem de forma irregular no país.O
Paquistão não é signatário das convenções internacionais relativas ao
estatuto dos refugiados, nem tem uma legislação nacional que lhes
garanta proteção.