Quando se olha o Atlântico como um todo e Portugal tem “papel significativo”
3 de set. de 2025, 09:57
— Helena Tecedeiro/Diário de Notícias
Crescer dois países por ano. Este é o objetivo que Nuno de Noronha
Bragança estabelece para o Atlantic Centre. Neste momento esta
iniciativa de Portugal conta com 27 Estados signatários - dos EUA a
Angola, da Dinamarca à Argentina, sem esquecer o Brasil, França Alemanha
ou Reino Unido. Mas para um projeto que quer “olhar o Atlântico como um
todo”, é importante alargar o número de membros desta comunidade de
interesses atlântica, nas duas margens deste oceano.Sentado num dos
gabinetes do Ministério da Defesa Nacional, o contra-almirante, à frente
do Atlantic Centre desde março de 2023, explica que neste contexto de
“todo o Atlântico”, Portugal tem “uma posição significativa”, até pelos
laços históricos que o unem a vários dos Estados signatários do Atlantic
Centre, tanto na margem africana como na margem americana deste oceano.“Portugal
é um país que tem a dimensão geográfica que tem, territorial que tem,
mas depois, de facto, agiganta-se na sua dimensão marítima e temos de
procurar esse potencial”, garante. E no Atlântico, “temos este
triângulo”, afirma Nuno de Noronha Bragança. E destaca o papel dos
Açores, com os quais o Atlantic Centre mantém uma cooperação estreita.
Para já, no curso de Segurança Marítima que o centro costumava organizar
na Base das Lajes. E lembra que esteve previsto que a sede do centro
fosse instalada na Base das Lajes, na ilha Terceira. Em 2021 tal foi
mesmo anunciado pelo então ministro da Defesa João Gomes Cravinho, que
avançou que a sede ficaria em infraestruturas desocupadas pela Força
Aérea americana.O contra-almirante começa por explicar que o
Atlantic Centre nasce como ideia logo em 2015, sendo a sua criação
confirmada por uma resolução do Conselho de Ministros três anos depois.
Mas só em 2021 emerge com a atual configuração, com 16 países a
assinarem a Declaração Política Conjunta. “Eram 16 países, de três
continentes, já então numa ideia alargada do espaço atlântico. E não
aquela ideia de um espaço transatlântico focado no Norte”, explica Nuno
de Noronha Bragança.Tendo deixado cair a vertente mais militarista
com que surgiu inicialmente, “muito orientado para aquilo que seria um
projeto de capacitação de Marinhas e Guardas-costeiras neste espaço
atlântico”, o Atlantic Centre passou a focar-se mais no diálogo entre os
seus Estados signatários, numa procura de soluções para problemas e
desafios comuns.Nuno de Noronha Bragança enumera três princípios e
três pilares que sustentam a atividade do centro. Primeiro é esta ideia
de olhar o Atlântico como um todo, o que o contra-almirante descreve
como quase “pan-atlântica”. Segundo são os aspetos de segurança, num
sentido lato e não só no sentido militar. “A segurança humana, mas
também a segurança marítima, no sentido britânico de safety”, explica.
E, terceiro, a complementaridade. Ou seja, o centro deve desenvolver as
suas atividades de forma a complementar iniciativas já existentes.Como
é que estes três princípios se põem em prática? Através de três
pilares. O primeiro é o do diálogo com os governos, mas também com
outras instituições dos vários países signatários, aumentando o
conhecimento mútuo e a consequente confiança. O segundo pilar prende-se
com o desenvolvimento do conhecimento. “Eu costumo dizer que se não
conhecemos uma coisa, não a conseguimos transformar. E precisamos
conhecer mais do espaço Atlântico, conhecer as várias vertentes, a
vertente do desenvolvimento sustentável, a vertente da segurança”,
explica Nuno de Noronha Bragança. Para o contra-almirante, “é nesse
sentido que o desenvolvimento para nós é importante. E isso liga-nos à
academia, a think tanks dos diferentes Estados signatários”, prossegue,
explicando que “temos vindo a produzir uma série de informação e de
conhecimento, relatórios, policy briefings, que temos disponíveis para
todos. Não só para os Estados signatários, mas para o público em geral".Por
fim, o terceiro pilar é o apoio à capacitação. Ou seja, “é procurar,
junto dos parceiros, aqueles projetos que precisam de apoio, aquele
vazio, aquela complementaridade. E, com boas-práticas, desenvolver
juntamente com os Estados signatários, mas também com organizações,
aquilo que são os projetos que nós pretendemos priorizar nesta fase de
consolidação do Atlantic Centre”, sublinha Nuno de Noronha Bragança. E
acrescenta que neste momento o centro prefere avançar com poucos
projetos, mas que sejam sólidos. “Desenvolvemos projetos que queremos
que sejam sustentáveis, e que se mantenham no tempo". É neste pilar que
se inserem os cursos de segurança marítima, que o centro organiza
anualmente nos Açores.E Nuno de Noronha Bragança dá o exemplo de um
momento em que o Atlantic Centre revelou um “sentido antecipatório das
coisas”. Foi em 2022 quando “à margem da Conferência dos Oceanos, em
Lisboa, o centro organizou uma outra sobre cabos submarinos”. Um tema
que na altura ainda era pouco debatido, mas que hoje se tornou
incontornável. Afinal 95% do tráfego da internet está hoje protegido por
cabos submarinos e que 1,3 milhões de km de cabos garantem cerca de dez
biliões de dólares de transações financeiras todos os anos. E não
podemos esquecer que 10% a 15% dos cabos de todo o planeta passam pela
Zona Económica Exclusiva de Portugal.Mas como é que 27 países, com
agendas e prioridades muito diferentes - alguns até com um passado em
que já estiveram em guerra, como a Argentina e o Reino Unido por causa
das Falklands/Malvinas - conseguem colaborar nesta iniciativa? O
contra-almirante garante que não é complicado e que se encontram sempre
soluções. E dá o exemplo do tema do curso de segurança marítima deste
ano que foi Alterações Climáticas e os Desafios para a Segurança no
Atlântico. “Os EUA, na altura por decisão do Departamento de Estado,
comunicaram que esse era um tema que acompanham, mas que não iam
participar”.Apesar desta decisão da Administração de Donald Trump, o
contra-almirante lembra que “tivemos a participação dos americanos,
tivemos a Universidade Johns Hopkins, tivemos outras universidades,
tivemos um americano que veio falar da utilização dos cabos submarinos
para a ciência, o que se chama Smart Cables”. Ou seja, “o Atlantic
Centre adapta-se e trabalha com as realidades nacionais".Lutar em comum contra problemas comunsCom uma equipa de apenas quatro pessoas a tempo inteiro, apoiadas sempre
por dois estagiários, o Atlantic Centre procura debater os desafios
comuns que os seus membros enfrentam, sempre numa ótica de segurança
alargada: do ambiente e desenvolvimento sustentável, ao processo de
transição energética, da digitalização às energias verdes, mas também o
comércio marítimo ou os fluxos de pessoas.Nuno de Noronha Bragança
lembra que “o oceano não tem fronteiras. Em termos do direito
internacional, estabelecemos regras e limites. Mas, e é um lugar comum
dizer, os peixes não reconhecem fronteiras, não sabem o que é uma Zona
Económica Exclusiva”. E o mesmo acontece com as ameaças que circulam
pelo Atlântico. O contra-almirante dá o exemplo do crime organizado e do
narcotráfico que vê como “a maior expressão do que é a
transnacionalidade”. “Aqui não há fronteiras, não é uma questão só do
Norte ou só do Sul, ou do Leste ou do Oeste”, continua, acrescentando
que o impacto afeta todos e obriga a reajustar os mecanismos de
segurança.“O continente africano era um local de trânsito, e agora
passou de ser um local igualmente de consumo, e vemos como isso pode ser
explosivo quando temos 12 milhões de jovens africanos a entrar todos os
anos para o mercado de emprego. E se essa realidade não se ajustar,
vemos a facilidade com que podem derivar para outras atividades,
sobretudo com a pressão que existe nas zonas urbanas e nas megacidades
que se criam nas zonas costeiras".Para Nuno de Noronha Bragança,
“estas são as realidades que debatemos e para as quais procuramos
trazer, não sei se novas ideias, mas ideias que se possam sustentar no
âmbito das políticas públicas, da governação, e daquilo que é a
importância de trocarmos informação e de podermos olhar para problemas
que são comuns, em comum”.Projeto do Ministério da Defesa português,
o Atlantic Centre trabalha também em parceria com o Ministério dos
Negócios Estrangeiros e outros, além de muitas instituições públicas ou
privadas. Antes de nos despedirmos, tempo ainda para Nuno de Noronha
Bragança destacar a parceria com a Fundação Luso-Americana para o
Desenvolvimento (FLAD). Em conjunto têm procurado “trazer a comunidade
académica a desenvolver conhecimento, a refletir, a pensar sobre aquilo
que é o espaço atlântico. O espaço atlântico na sua dimensão da economia
azul, da segurança atlântica, da energia, dos vários vetores que podem
ajudar a trazer para a sociedade um conhecimento, que é partilhável”,
explica o contra-almirante.Nesse âmbito foi criado o Atlantic
Security Award, com o objetivo de apoiar a investigação na área da
Segurança e Defesa no Atlântico. “O Atlantic Security Award, que
acompanha o Atlantic Centre desde o início, é uma daquelas iniciativas
que são um bom exemplo de sucesso no que é a finalidade de trazer a
academia, trazer as pessoas, a pensarem connosco nos desafios”, remata o
contra-almirante.27 Estados signatáriosÁfricaMarrocos,
Mauritânia, Senegal, Gâmbia, Cabo Verde, Guiné-Bissau,
Guiné-Equatorial, Gana, Togo, Nigéria, São Tomé e Príncipe, Camarões,
Angola.AméricasEstados Unidos, República Dominicana, Panamá, Colômbia, Brasil, Uruguai e Argentina.EuropaDinamarca, Países Baixos, Reino Unido, Alemanha, França, Espanha, Portugal.