Quando o sonho da maternidade se transforma em pesadelo

Hoje 11:14 — Daniela Carreiro

A maternidade começa no dia em que uma mulher descobre a gravidez. De repente, começam os sonhos e as expectativas, não só em relação à criança que vai nascer, mas também em relação à gravidez, ao parto e ao puerpério (período pós-parto que dura, aproximadamente, entre 6 a 8 semanas).Infelizmente, cada vez mais existem relatos e denúncias de mães que viram a sua experiência manchada por violência obstétrica.A violência obstétrica define-se por condutas e procedimentos abusivos, exercidos por profissionais de saúde, ao longo da gravidez, do parto e do puerpério. Porém, ocorre também em situações de aborto e em cuidados prestados após aborto.Joana Moreira, psicóloga na APF Açores – Associação de Planeamento Familiar, explica, em entrevista ao Açoriano Oriental, que o termo engloba várias formas de violência: desde a violência física, verbal e psicológica até à realização de procedimentos sem o consentimento da paciente ou à negligência, omitindo, por exemplo, o alívio da dor.Joana Moreira adverte que as práticas que constituem o termo “não respeitam a autodeterminação, a autonomia e o poder de decisão sobre o próprio corpo num momento de vulnerabilidade” e que, “quando não autorizadas, violam o direito fundamental à integridade física”.O European Union Report on Obstetric Violence, publicado em 2024, revelou que entre 21% e 81% das mulheres inquiridas, dos 27 Estados-membros da União Europeia, experimentaram tratamento desrespeitoso, não consensual ou sobremedicalizado durante o parto.“Os estudos em diferentes países europeus revelam que a grande maioria das pessoas que dão à luz relata ter enfrentado alguma forma de maltrato, nomeadamente falta de consentimento claro, livre e informado da paciente”, adianta Joana Moreira.Outra forma de abuso que a psicóloga da APF Açores enfatiza é o abuso verbal e físico: “Parturientes e puérperas frequentemente reportam linguagem agressiva, humilhação e omissão de cuidado, pois veem a sua dor ignorada pelos profissionais de saúde.”Todavia, dentro das denúncias de violência obstétrica, Joana Moreira frisa que, relativamente à perceção da dor, os estudos são “consistentes em concluir que existe tendência para favorecer um género em detrimento do outro”, esclarecendo que “queixas de dor ou sintomas reportados por mulheres são muitas vezes mais minimizadas ou atribuídas a fatores emocionais do que as queixas de homens”.Para além disto, jovens mulheres, mulheres consideradas de baixo rendimento ou pertencentes a grupos marginalizados enfrentam maior probabilidade de sofrer maus-tratos.O Observatório da Violência Obstétrica em Portugal recebeu, entre a sua fundação, em 2021, e 2025, cerca de 1000 queixas desta forma de abuso.Joana Moreira confessa que “estas queixas chegam sobretudo de mulheres com algum nível de formação ou estatuto social, pelo que se suspeita que haja muitas mais”.Ou seja, em Portugal, a violência depende não só da classe social a que a mulher pertence, mas também do seu nível de instrução.Porém, a psicóloga salienta que as práticas são feitas por comodidade dos profissionais de saúde, mas também por falta de recursos humanos e materiais, e representam custos para as mulheres, uma vez que “alteram o sistema imunológico; facilitam o desenvolvimento de mais alergias, asma, obesidade e quadros infecciosos; dificultam a vinculação e a lactação e provocam mais depressões pós-parto”.Destaca a episiotomia, por exemplo, que “pode ter impacto na recuperação, podendo provocar fragilidade na região perineal; aumentar o risco de romper o períneo num futuro parto e ainda produzir dor na relação sexual”.Além das consequências para as mulheres e respetivas crianças, estas práticas representam “elevados custos para os sistemas de saúde”, finaliza a psicóloga.