Quando a música se faz com um Tremor "por dentro"
Som Sim Zero
21 de mar. de 2018, 15:55
— Miguel Bettencourt Mota
"Nunca
imaginei, nem em pequena, poder sentir o que senti...Foi arrepiante",
deu conta Maria de Jesus a este jornal, que - sendo traduzida
gestualmente pela diretora técnica da Associação de Surdos da Ilha
de São Miguel (ASISM), Isabel Castro e Silva -, fazia o balanço da sua
participação no laboratório que marcou o arranque do projeto
artístico.
Som Sim Zero,
recorde-se, integra o programa do festival Tremor, que se realiza em
São Miguel de 20 a 24 de março, e é uma iniciativa do coletivo
ondamarela que está a ser construída com elementos da ASISM, outros
interessados e músicos açorianos. A experiência cuida, assim, de
explorar o som, trabalhar as diferentes particularidades dos
participantes e do espaço, e de criar algo singular que possa
perdurar na memória do festival e da comunidade micaelense.
Para cumprir com
esse objetivo, lá estão Maria de Jesus e João Oliveira, também
surdo profundo. Uma com o reco-reco e o outro com o bombo, vão
tratando de se preparar para a performance de sábado, a ter lugar no Auditório Luís de Camões, pelas 17h00.
"Nós vamos
praticar nos próximos dias e esperamos no dia 24 poder
proporcionar um bom espectáculo...Vamos ver o que vai acontecer",
afirmou João, manifestando o desejo de que, naquela tarde, a sala
esteja composta, não só por ouvintes, mas também por surdos.
A música,
explicaram-nos, não se lhes entra como aos ouvintes. Chega-lhes
"pelo chão", "pela vibração" até poder ser
sentida "e se conseguir 'ouvir' por dentro".
Por essa razão, a
inclusão de instrumentos de percussão está a ser tão mais
pertinente e adequada: "sente-se o dobro da vibração...Com
violinos ou flautas seria bem mais complicado", sinalizou Maria
de Jesus.
Portanto, é como se
Maria de Jesus e João Oliveira – tal como os outros surdos que
participam na atividade – estivessem a 'vibrar por simpatia' e, ao
tocarem os respetivos instrumentos, a contribuir para ela (diz-se vibrar por simpatia' quando
uma ou mais cordas são tangidas ou dedilhadas e uma outra vibra,
ressoa, como consequência dessa ação).
Entretanto, quem
também vibra com a iniciativa, mas está igualmente encarregue de
afinar esse 'grande instrumento inclusivo', é Ricardo Baptista,
Ana Bragança - co-fundadores da ondamarela - e também Samuel Coelho
– convidado do coletivo de artistas.
Para tal,
fundiram-se línguas (gestual e verbal) e criou-se quase como um novo
código de comunicação, que, além da utilidade para a condução
dos ensaios, já permitiu deixar um ponto assente: todos os quantos
"estiverem presentes na sala fazem parte da banda", indicou
Ricardo Baptista, falando com o Açoriano Oriental.
O objetivo é um
pouco o de "fazer repensar o papel do cidadão num acto cultural
como o Tremor", declarou o responsável, convicto de que é com
ações como a do Som Sim Zero que se "avança
no sentido de perceber convenientemente que todos temos um lugar na
produção artística e é só convocando a todos que saímos dos
clichés".
Como
defendeu Ricardo, "se só trabalharmos com uma elite ou com um
grupo especializado de pessoas vamos ter os mesmos produtos e
resultados".
Por
agora, fica o desejo - talvez "utópico" - que, depois do dia 24 de
março, fique o legado do trabalho desenvolvido. No fundo, "que
fique, pelo menos, na cabeça de cada um dos nossos participantes a
ideia de que naquele momento puderam fazer parte, criar, ou co-criar
uma coisa que vai ser única e irrepetível", prosseguiu,
sublinhando o seguinte: "o som que nós fizermos ali em cima de palco será
um som que nunca foi produzido no universo".
Por
essa razão, a diretora técnica da ASISM aplaude a iniciativa,
esperançada de que esta possa fazer eco junto de outras
instituições e agentes, despertando neles a vontade de contribuirem
para o diluir das fronteiras da diferenciação.
"Eu acho que é essencial que existam mais iniciativas destas,
sempre pensando que as atividades podem ser mais inclusivas e a
sociedade pode estar mais sensibilizada para a diferença",
advogou Isabel Castro e Silva, também psicóloga na associação.
Entende
a profissional que são oportunidades como as do Som Sim Zero que,
"dadas em simultâneo e adaptadas", colocam os surdos "em
pé de igualdade com qualquer qualquer pessoa ouvinte".
Por
outro lado, Isabel Castro e Silva saúda o facto de o projeto permitir "dar mais
visibilidade à comunidade surda e à própria associação". As
portas fechadas são menos do que as que existiam no passado, mas
atividades do género são sempre bem-vindas.
"Pode
ser em qualquer oportunidade e local, porque a Associação
está disponível para tudo: ajudar e participar", frisou. * na imagem pode ler-se Tremor em língua gestual portuguesa