Quadro de Picasso esconde pintura de outro artista espanhol
17 de fev. de 2018, 16:17
— Lusa/AO online
O
quadro é "La miséreuse accroupie" (A mulher agachada, em tradução
livre), um óleo que Pablo Picasso (1881-1973) pintou no "período azul",
assim chamado devido à cor que predominava nas suas telas entre 1901 e
1904. Os
detalhes do quadro, que pertence à Galeria de Arte de Ontário, no
Canadá, foram postos a nu por uma equipa internacional de cientistas, um
curador e um conservador e serão apresentados hoje à imprensa em
Austin, nos Estados Unidos, no encontro anual da American Association
for the Advancement of Science (Associação Americana para o Avanço da
Ciência). No
trabalho de análise da tela os peritos usaram técnicas não destrutivas
baseadas em raios-X e infravermelhos, precisa em comunicado a
universidade norte-americana de Northwestern, que participou no estudo.
As imagens obtidas permitiram-lhes concluir que Picasso fez alterações subtis na pintura antes de chegar à versão final.Segundo
os especialistas, o artista pintou inicialmente a figura da mulher com o
braço direito visível e a mão a segurar um disco, mas acabou por
cobri-los com um manto. Para
o curador-assistente de arte moderna da Galeria de Arte de Ontário,
Kenneath Brummel, o braço invisível de "La miséreuse accroupie" tem os
mesmos traços do braço direito da mulher agachada da aguarela "Femme
assise" (Mulher sentada), também de 1902 e recentemente vendida em
leilão.A
análise do quadro "La miséreuse accroupie", realizada em tempo
considerado recorde e na própria galeria com instrumentos portáteis, pôs
a descoberto uma paisagem desenhada por um outro artista espanhol, cuja
identidade é desconhecida. Picasso incorporou, por exemplo, os
contornos de penhascos nas costas da mulher.Perante
as descobertas, os especialistas acham que estão aptos para "contar a
história" do "desenvolvimento do estilo" de Picasso e "possíveis
influências" na sua pintura, nas palavras da conservadora de quadros da
Galeria de Arte de Ontário, Sandra Webster-Cook.A
divulgação de novos dados está prometida para 01 de junho, em Houston,
no encontro anual do American Institute of Conservation (Instituto
Americano para a Conservação).Num
outro trabalho sobre a obra de Picasso, mas desta feita sobre escultura
e cujos resultados serão também apresentados hoje no encontro anual da
Associação Americana para o Avanço da Ciência, os peritos descobriram em
que fundição de Paris, onde o artista espanhol viveu e trabalhou, foram
feitas cinco esculturas em bronze sem assinatura, datadas de 1941 e
1942.O estudo
revelou que a composição das ligas metálicas usadas variava
significativamente e que uma outra escultura feita em outro material,
com o título "Cabeça de mulher", que foi inspirada na segunda mulher de
Picasso e datada de 1962, tem pormenores faciais em prata.Para
este trabalho, uma equipa de especialistas em estudos de arte,
incluindo do Museu Picasso de Paris, utilizou igualmente técnicas de
análise por meio de raios-X.De
acordo com um comunicado da Universidade de Northwestern, nos Estados
Unidos, que participou também na investigação, as cinco esculturas de
bronze, para as quais Picasso construiu moldes em gesso na década de 30,
foram fundidas na casa Robecchi, nome de um colaborador menos conhecido
do artista.A
composição das ligas metálicas utilizadas por Émile Robecchi era
diferente, fruto das circunstâncias da ocupação nazi de Paris na Segunda
Guerra Mundial (1939-1945): os metais brutos escasseavam na altura, o
regime alemão apropriava-se dos metais não-ferrosos e canalizava-os para
a guerra e o latão de peças de uso comum era reutilizado com outros
fins.Os
peritos concluíram que, para a escultura policromada em ferro fundido
"Cabeça de mulher", inspirada em Jacqueline Roque, Picasso usou prata
para realçar detalhes faciais como cabelo e olhos.