PSP deteve mais de 50 pessoas por tráfico de sintéticas em ano e meio
16 de dez. de 2022, 11:16
— Nuno Martins Neves
Mais de 50 pessoas suspeitas de tráfico de droga, diretamente ligadas às
chamadas “sintéticas”, foram detidas pela PSP de Ponta Delgada, desde
maio de 2021. O número foi revelado pelo comissário da PSP, Nuno Costa, e
pelo comandante da Esquadra de Investigação Criminal de Ponta Delgada,
João Frias, em entrevista ao Açoriano Oriental.O número revela a
importância atribuída por esta força policial ao flagelo das Novas
Substâncias Psicoativas(NSP), vulgarmente conhecidas por drogas
sintéticas, que têm conhecido um aumento significativo na Região
Autónoma dos Açores, mas também na Região Autónoma da Madeira.“Esta
tem sido uma das grandes prioridade da PSP, ainda mais desde que em maio
de 2021 um conjunto de NSP foram incluídas na definição de droga e,
portanto, criminalizadas. De lá para cá, temos tido a capacidade de
obter resultados mais efetivos no combate a um das maiores causas de
insegurança e intranquilidade pública na ilha de São Miguel e no resto
da Região”, assinala o comandante João Frias.Além dos mais de 50
detidos, “ligados ao tráfico de drogas, com ligações diretas às
sintéticas”, assinala o comissário Nuno Costa, as investigações da PSP
têm permitido deduções de acusações por parte do Ministério Público (MP)
e posteriormente condenações em sede de julgamento.Um combate sem
quartel mas que tem sido, também “uma luta contra o desconhecido”, como
descreve o comissário Nuno Costa, referindo-se ao surgimento rápido de
novas NSP no mercado de consumo. Aliás, há poucas semanas, no concelho
da Ribeira Grande, foram detetadas duas substâncias novas, a nível
europeu.O flagelo das sintéticas surge espalhado pelas
nove ilhas, com maior incidência nas zonas com mais população, com “uma
prevalência na ilha de São Miguel, pelo número de habitantes e pela
população flutuante”, diz o comandante João Frias.E dentro da ilha,
há zonas mais problemáticas e que têm sido alvo de maior atenção por
parte das autoridades policiais, como São Roque, Livramento, Arrifes,
Porto dosCarneiros, concelho da Ribeira Grande, entre outros.“São
diversos focos pela ilha, que são do nosso conhecimento”, assinala o
comandante da esquadra de Investigação Criminal. “Mas é preciso tempo
para termos indivíduos detidos e condenados: é preciso que a
investigação seja feita de forma sustentada, consolidada, para dar as
ferramentas ao MP poder fazer o seu trabalho de responsabilização dos
suspeitos”, acrescenta, reconhecendo que a complexidade do crime exige
uma investigação “prolongada no tempo - algumas por mais de um ano - e
que nem sempre consegue ter efeitos imediatos, desejados não só pela
polícia como pela sociedade”.Além disso, o perfil do consumidor de
NSP está ligado ao consumo de outras substâncias:“Normalmente, quem
consome sintéticas, ou já consumiu ou continua a consumir outras
drogas”, acrescenta o comissário Nuno Costa.“Muitas vezes são
pessoas que já estiveram ligadas ao consumo de drogas como heroína,
principalmente, mas como é um tipo de droga que não apresenta a chamada
‘ressaca’ tão evidente, acaba por ser uma droga mais apelativa, para não
referir que tem um preço de mercado muito mais apetecível, comparando
com as drogas duras, como a heroína e a cocaína”, refere João Frias.O
comandante da Esquadra de Investigação Criminal considera
“verdadeiramente alarmante” a quantidade de vezes que as palavras
“drogas” e “sintéticas” surgem nos mais diversas peças de expediente,
que diariamente são feitas pelos polícias da divisão de Ponta Delgada,
pelo que “será um fenómeno que vai continuar a merecer a nossa atenção”.E
apesar de não haver estudos que liguem o consumo de drogas sintéticas a
um aumento de violência, a experiência das autoridades policiais e
judiciárias encontra uma ligação estreita entre a criminalidade
registada atualmente e o consumo das NSP.“Dentro daqueles crimes que
acabam por ter consequências mais graves para a própria vida e
integridade das pessoas, estão diretamente ligadas a indivíduos
consumidores de NSP, pois são indivíduos que acabam por ter um
comportamento imprevisível, ter alucinações, após consumirem. Ou seja,
não têm uma noção concreta do seu comportamento e acabam por resvalar
para comportamentos violentos”, assinala João Frias.Por isso, dos
três pilares de atuação da PSP (prevenção, repressão e investigação
criminal), o primeiro é tido pelo comissário Nuno Costa como o mais
fundamental para o combate. Assinalando que todas as entidades
judiciais e policiais “encontram-se alinhadas no combate conjunto a este
fenómeno, sem prevenção, é impossível conseguirmos tirar algum
dividendo daquilo que fazemos diariamente”. Daí, a aposta nas
comunidades escolares, com visitas que alertam os mais novos dos
impactos que o consumo de drogas, em especial das NSP, têm na saúde
física e mental dos seus consumidores.“No capítulo da prevenção, o
trabalho mais importante da polícia, e que cada vez mais tem de ser uma
aposta por parte dos mais diversos atores sociais, assenta no
policiamento de proximidade, desenvolvido quase sempre nas escolas,
junto das famílias, de forma a despertar consciências e a alertar para
as consequências da saúde de quem consome estas substâncias, e dar conta
dos danos irreversíveis que podem vir a acontecer aos consumidores das
NSP. E ainda mais grave que isso, conforme temos vindo a assistir, num
passado não muito distante, a comportamentos de índole suicidária, por
parte de consumidores, que acabaram por resultar em morte, de jovens
cidadãos residentes em São Miguel”, diz o comandante João Frias.”