Psicopatas vivem entre nós e alguns ocupam lugares de poder
24 de jun. de 2024, 11:38
— Lusa
No
livro “Lugares escondidos da mente – Do mais sombrio ao mais luminoso
da natureza humana”, João Carlos Melo escreve sobre estas pessoas que se
escondem por detrás de “uma máscara de sanidade”, mas que “são máquinas
frias, calculistas, programadas para sobreviver e atacar”. Em
entrevista à agência Lusa, João Carlos Melo explicou que os psicopatas
têm uma vida e um “aspeto normal” e alguns ocupam lugares de poder, o
que é “o mais complicado de tudo”.“Disfarçam-se
de cidadãos exemplares, amantes irresistíveis, profissionais briosos,
adotam discursos e gestos adequados às ocasiões. Mas as leis são as
deles. Não se conformam nem respeitam as regras sociais, a menos que
isso os prejudique”, afirma o psiquiatra no livro, que é lançado no
sábado, em Lisboa.Estes homens e mulheres
têm poder dentro da própria família e dos grupos que fazem parte.
“Depois de terem o poder revelam-se como são, humilhando e destruindo de
várias maneiras os outros”.Para o psiquiatra, a “arma principal” para combater este problema é “a informação e a divulgação” da sua existência.“Eles
vivem entre nós. Cruzamo-nos diariamente com eles, até convivemos com
alguns (…). Isto não seria problemático se estas pessoas fossem
inócuas”, mas são tudo menos isso, daí a necessidade de identificá-los
para as pessoas perceberem quem são e se poderem defender do “perigo que
constituem”, escreve.Segundo o
especialista, os psicopatas “nunca pedem ajuda” e quando o fazem é
porque a mulher, no caso dos homens, os obrigou a fazer psicoterapia com
a ameaça de os deixarem ou porque têm sintomas de depressão, ansiedade
ou insónia.“Mas porque não quer perder a
mulher? Porque precisa dela para descarregar aquela maldade ou porque
precisa dela como um objeto, para não se sentir só, mas não a respeita”,
explicou.Contou que nessas situações é
“muito claro”, ao dizer-lhes que “não faz sentido fazerem psicoterapia”,
porque para aceitar o tratamento a pessoa tem de ter consciência que
tem um problema e que quer resolvê-lo, o que não é o caso.“Portanto,
o melhor tratamento para a psicopatia é a prevenção, nomeadamente das
pessoas que lidam com essas pessoas, saindo das relações o quanto mais
cedo melhor e, nos casos em que é possível, nem chegarem a entrar na
relação, o que é difícil porque são pessoas falsas, manipuladoras
sedutoras e que enganam as outras pessoas”, salientou. A
psicopatia e a sociopatia não são classificadas como doenças
psiquiátricas e por isso não há dados fidedignos sobre a percentagem da
população que sofre destes transtornos de personalidade. Por isso,
também não são detetados na saúde. E
também não são apanhados pela justiça, porque “os mais inteligentes e
mais perseverantes (…) estudam o Código Penal para perceberem até onde é
que estão dentro e fora da lei”. Da essência do psicopata faz parte “a ausência de sentimentos, de empatia”, o que faz com que não gostem de ninguém.
“As suas emoções são planas e secas, sem profundidade nem vida”,
descreve no livro em que conta a história do neurocientista e
investigador James Fallon que descobriu que ele próprio era psicopata
durante um estudo que estava a realizar.
João Carlos Melo disse ter “uma vontade profunda” de ajudar pessoas que
foram ou são vítimas de indivíduos com características psicopáticas,
narcísicas, mas admitiu não gostar “destes indivíduos”.
“Se fosse cirurgião e um indivíduo desses precisasse de uma cirurgia eu
fazia e dedicava-me completamente, mas reservava-me o direito de
continuar a não gostar dele”, sustentou o também psicoterapeuta, que
durante nove anos fez “grupanálise” para ficar mais preparado para
“tratar os outros”. À questão levantada
por si “Os psicopatas têm partes boas, facetas positivas e humanas da
sua personalidade”, responde “evidentemente que sim, são humanos, mas
uma coisa é certa: Não têm cura”. No
livro, João Carlos Melo reúne histórias reais de situações limite e
ajuda a compreender a origem de determinados comportamentos e atitudes.
“O ser humano é capaz do melhor e do pior: dos atos mais cruéis,
sádicos e monstruosos aos mais sublimes, generosos e grandiosos. Somos
capazes de amor e de ódio – todos, individualmente e como espécie. É
esta a nossa natureza, é assim que somos feitos, quer se goste ou não”,
escreve o psiquiatra, autor de vários livros.