Psicóloga Rute Agulhas aponta “papel pioneiro” da Igreja no combate aos abusos sexuais
27 de abr. de 2023, 07:48
— Lusa/AO Online
Em
declarações prestadas na apresentação do denominado Grupo VITA, a
coordenadora desta nova estrutura proposta pela Conferência Episcopal
Portuguesa (CEP) assumiu a sua surpresa pelo convite para liderar o
grupo de trabalho de acompanhamento das vítimas, mas também o “imenso
entusiasmo” com o trabalho que tem pela frente e as “expectativas muito
elevadas”.“A violência sexual é um
problema de saúde pública, pela sua elevada prevalência e pelo impacto
no curto, médio e longo prazo. É um fenómeno transversal, com maior
prevalência intrafamiliar. A Igreja é um contexto, como outros. A igreja
assume aqui um papel pioneiro”, assegurou.Sublinhando
a constituição do grupo por leigos e o funcionamento “isento e
autónomo” em relação à Igreja, Rute Agulhas adiantou que o primeiro
relatório do trabalho desta nova estrutura será conhecido em dezembro
deste ano e que os casos serão encaminhados para o Ministério Público,
além dos institutos religiosos e das comissões diocesanas.A
coordenadora explicou que um dos aspetos prioritários do trabalho do
Grupo VITA, além do acompanhamento das vítimas, vai incidir na prevenção
de novas situações de abuso e na recuperação de agressores.“Acreditamos
na reparação e na possibilidade de mudança”, salientou a psicóloga,
apelando à confiança nos membros desta nova estrutura: “Tudo faremos
para concretizar aquilo a que nos propomos”.Por
outro lado, Rute Agulhas demarcou-se da ideia lançada pelo psiquiatra
Daniel Sampaio, membro da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos
Sexuais de Crianças na Igreja Católica que, após a apresentação do
relatório sobre o fenómeno, propôs a criação de uma via prioritária no
Serviço Nacional de Saúde (SNS) para responder a estas vítimas.“Não
é uma crítica, é um olhar diferente sobre quais podem ser as soluções
para este problema. Criar canais prioritários quando já tem havido
dificuldades do SNS é deixar pessoas para trás que também podem ter sido
vítimas. Não concordamos com essa perspetiva. Entendemos que essa não é
a verdadeira solução e que há caminhos mais justos”, frisou.O
contacto com o Grupo VITA poderá ser efetuado por via telefónica
através do número 915090000 (disponível a partir de 22 de maio, de
segunda a sexta-feira entre as 09:00 e as 18:00) e por email: geral@grupovita.pt.Além
de Rute Agulhas (especialista em Psicologia Clínica e da Saúde com
especialidades avançadas em Psicoterapia e Psicologia da Justiça), o
Grupo VITA será constituído por Alexandra Anciães (psicóloga,
experiência de avaliação e intervenção com vítimas adultas), Joana
Alexandre (psicóloga, docente universitária e investigadora na área da
prevenção primária dos abusos sexuais), Jorge Neo Costa (assistente
social, intervenção com crianças e jovens em perigo), Márcia Mota
(psiquiatra, especialista em Sexologia Clínica e intervenção com vítimas
e agressores sexuais) e Ricardo Barroso (psicólogo, docente
universitário e especialista em intervenção com agressores sexuais).Haverá
ainda um grupo consultivo, com a participação do padre João Vergamota
(especialista em Direito Canónico), Helena Carvalho (docente
universitária especialista em análise estatística) e o advogado David
Ramalho.A criação do Grupo VITA surge na
sequência do trabalho da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos
Sexuais de Crianças na Igreja Católica, liderada pelo pedopsiquiatra
Pedro Strecht, que, ao longo de quase um ano, validou 512 testemunhos de
casos ocorridos entre 1950 e 2022, apontando, por extrapolação, para um
número mínimo de 4.815 vítimas.