Próximo Governo tem de "atuar já contra violência online sobre mulheres"
12 de mai. de 2025, 12:15
— Lusa/AO Online
“Temos
que atuar já. Para o novo Governo que tomar posse [após as eleições
legislativas], esta tem de ser uma matéria de fundo a ser tratada”,
disse à Lusa Sandra Ribeiro, presidente da CIG, a propósito do aumento
da difusão, em várias plataformas da Internet, de conteúdos machistas,
misóginos e incitadores de violência sobre as mulheres.Para
a responsável do organismo nacional responsável pela promoção e defesa
da igualdade entre homens e mulheres, este é “um dos temas com
importância nacional suficiente para estar a ser discutido” na campanha
eleitoral.“É preciso não esquecer que o
vídeo da rapariga supostamente a ser violada por três rapazes esteve a
passar vários dias nas redes sociais, foi visto pelo menos por 32 mil
pessoas e ninguém fez queixa”, critica, referindo-se ao caso da alegada
violação de Loures por três ‘influencers’.“Isto
não pode acontecer. É normalizar tudo o que é profundamente negativo,
profundamente selvagem e não é a sociedade que queremos em pleno século
XXI”, sublinha.Sandra Ribeiro alerta que
existe uma “crescente voz masculina muito tóxica no sentido de que o
lugar das mulheres é em casa, de ‘vamos voltar a tomar o poder’, ‘mulher
que é minha não sai, não se comporta desta ou daquela maneira’”.“Isto é um sintoma de algo”, sustenta.Para a responsável, este “é o desafio da década”.Sandra
Ribeiro não duvida da influência destes discursos na sociedade,
sobretudo quando “os jovens passam horas infinitas nas redes sociais, a
consumir ‘TikToks’ e eventualmente outras redes” que os adultos
desconhecem. “Muitas das pessoas com este
discurso apresentam-se como jovens milionários, deslocam-se em carros de
alta cilindragem, fazem mentorias para os outros ficarem cheios de
sucesso e apresentam-se numa posição de superioridade face às mulheres.
Obviamente que isto influencia”, assegura.Por
outro lado, há “um acesso muito fácil à pornografia por parte dos
adolescentes” e “se um jovem com 11 ou 12 anos já consegue ter acesso,
vai ficar com uma ideia completamente deturpada das relações sexuais, de
namoro, da forma como se relacionar”.A
CIG apela a uma “narrativa coletiva de tolerância zero à violência
contra as mulheres ‘online’”, num esforço coletivo de união social.“Precisamos de não encolher os ombros ou acharmos que não é connosco”, defende.As
escolas “têm de estar muito atentas e capacitadas”, mas também são
precisos “meios institucionais fortes e eficientes”, nomeadamente para
que “as pessoas saibam a quem fazer queixa, para imediatamente haver uma
atuação”.“Precisamos também da área
artística, do desporto, de quem tem visibilidade pública, para dar a
cara por esta matéria”, afirma, frisando que “regular é “fundamental”.A
União Europeia aprovou em 2024 uma diretiva para criminalizar e
ciberviolência, estipulando o prazo de 2027 para a transposição para as
legislações dos estados-membros.“Não temos
esse tempo. Se só conseguirmos resolver o problema em 2027, quando
chegarmos lá já aconteceram imensas desgraças e os problemas vão ser
outros”, afirma. A presidente da CIG
defende igualmente “um trabalho com as empresas da tecnologia e com as
empresas que são donas destas plataformas digitais” para, “se possível,
estabelecer acordos voluntários” tendo em vista uma regulação e “um
maior controlo e um dispositivo eficiente que rapidamente detete o
problema e o possa eliminar”.“Se não conseguirmos regular, vamos perder completamente o controle sobre o que é visto, o que é feito”, afirma.A
presidente da CIG lembra “estudos que vão apontando para o facto de os
rapazes desistirem mais cedo da escola, de estarem com uma posição mais
conservadora sobre em quem votariam, e mais chegados à extrema-direita”.“Há um fosso que está a ficar mais profundo entre rapazes e raparigas”, o que é grave.