Provedora do animal e ecologistas contra a ‘sorte de varas’ nos Açores
17 de jun. de 2025, 16:32
— Lusa/AO Online
“Todos
nós percebemos o que é a entrada de uma lança no cachaço do animal e,
obviamente, que estes ferimentos vão provocar a perda de sangue ao
animal, que já está num ambiente que lhe é hostil. Julgo que podemos
dizer, claramente, que o animal está a ser massacrado”, explicou a
provedora do animal nos Açores, Dagmar Sampaio, na Comissão de Assuntos
Parlamentares, Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Assembleia
Regional, reunida em Ponta Delgada.A
audição ocorreu a propósito de uma petição, entregue no parlamento
açoriano, subscrita por um grupo de cidadãos, que se opõe à eventual
introdução da ‘sorte de varas’ ou ‘lides picadas’ (em que o touro é
picado por uma lança) nos espetáculos tauromáquicos, na sequência de
declarações recentes do secretário regional da Agricultura, António
Ventura, a propósito deste assunto.Subscrita
por mais de 2.200 pessoas, a petição defende que “voltar a legalizar
este tipo de violência é um enorme retrocesso civilizacional, ainda mais
quando se tenta passar uma imagem dos Açores como destino de natureza e
de bem-estar animal”.A provedora do
Animal nos Açores entende que a ‘sorte de varas’ “não garante o
bem-estar animal” nos espetáculos tauromáquicos e considera mesmo que
esta prática, permitida ainda em alguns países europeus, vai acabar por
desaparecer, de uma forma natural, com o tempo.“Custa-me,
um bocadinho, a terminologia de espetáculo, quando nós estamos a
presenciar, em boa verdade, de forma mais ou menos agressiva, maltrato
animal!”, realçou Dagmar Sampaio.Também
Diogo Caetano, da associação ecologista “Amigos dos Açores”, ouvido hoje
pelos deputados, contestou a eventual introdução da ‘sorte de varas’ no
arquipélago por considerar que não se pode “aceitar o aumento do
sofrimento animal, à custa da diversão humana”.No
seu entender, haverá também um “conflito de interesses” em torno desta
matéria, uma vez que foi um membro do Governo Regional de coligação quem sugeriu que o parlamento regional alterasse a
legislação, no sentido de permitir as lides picadas nos espetáculos
tauromáquicos.“Estar um membro do
executivo a procurar suporte na Assembleia Legislativa para tentar
viabilizar uma determinada iniciativa, parece-nos que é um claro
conflito de interesses”, insistiu o ecologista, que defende também que
as touradas “não devem ter apoios públicos”.Recorde-se
que a ‘sorte de varas’ foi aprovada na Assembleia Legislativa dos
Açores em 2002, mas o diploma acabou por ser vetado pelo ministro da
República para os Açores de então, Sampaio da Nóvoa, e enviado para o
Tribunal Constitucional, que o rejeitou.Em
2009, um grupo de deputados, liderado pelo social-democrata José Manuel
Bolieiro (atual presidente do Governo Regional dos Açores), tentou
trazer a ‘sorte de varas’ de novo ao parlamento regional, com o apoio de
vários outros parlamentares do PSD, do PS, do CDS e do PPM.O
argumento invocado era que as ‘lides picadas’ permitiriam melhorar a
"qualidade artística" das touradas na ilha Terceira, atraindo e
satisfazendo as exigências das grandes figuras do toureio mundial, mas o
diploma acabou chumbado, por apenas um voto de diferença.