Provedora de Justiça diz que 40% do total das queixas recebidas são de imigrantes
11 de out. de 2024, 11:52
— Lusa/AO Online
A provedora Maria Lúcia Amaral
foi ouvida na comissão parlamentar de Assuntos Constitucionais,
Direitos, Liberdades e Garantias para apreciação do relatório anual do
provedor de Justiça relativo a 2023, bem como do relatório nacional
referente ao Mecanismo Nacional de Prevenção da Tortura.Em
resposta aos deputados, Maria Lúcia Amaral sublinhou que 40% de todas
as solicitações/queixas feitas na provedoria de Justiça estão
relacionadas com imigrantes, devido à morosidade dos serviços,
burocracia e falta de condições de acolhimento.A
provedora considerou que o país acolhe as pessoas e a administração
pública “não as trata bem porque não trata deles” como deveria de ser.“É
um exemplo que a lei e a execução da lei às vezes estão divorciadas”,
disse, considerando que a decisão da extinção do Serviço de Estrangeiros
e Fronteiras (SEF) foi “tomada na pior altura” e que atualmente há um
afluxo na AIMA de “pessoas em situações incríveis” a quem os serviços
tardam em dar proteção.Outra das questões
abordada por vários deputados esteve relacionada com as prisões,
explicando a provedora que o relatório deste ano aborda sobretudo
situações de maus-tratos e agressões a reclusos sem que existam depois
os respetivos relatórios e processos correspondentes.Ana
Lúcia Amaral referiu que nos anteriores relatórios foi relatada a falta
de condições da maioria das cadeias portuguesas [tendo até o Estado
português sido condenado pelo Tribunal Europeu dos Direitos Humanos],
continuando a situação na mesma.Contudo, a
provedora afirmou que os responsáveis prisionais têm acolhido bem
algumas recomendações da provedoria para melhorar as condições.A
mesma responsável disse igualmente que grande parte das queixas
recebidas estão relacionada com o funcionamento da Segurança Social,
ressalvando contudo que têm existido contactos regulares com o Instituto
da Segurança Social e havido “uma grande recetividade nas propostas e
nos problemas apresentados”.O relatório
lançado a 12 de julho e hoje debatido na primeira comissão refere que a
provedora de Justiça recebeu 10.641 queixas em 2023, o número mais baixo
dos últimos cinco anos, das quais resultaram quase 2.900 queixas
instruídas, sobretudo relativas a questões com a Segurança Social.No
mais recente relatório deste órgão de Estado é possível constatar que
as 10.641 queixas recebidas se dividem entre 7.787 apreciações liminares
e 2.854 queixas instruídas.No relatório é
explicado que, desde abril de 2022, a provedoria tem um novo modelo de
tratamento de queixas e passou a ter uma equipa que faz uma análise
prévia e a triagem, decidindo o que consegue ser resolvido imediatamente
e o que deve ser reencaminhado para outras entidades.Na
sequência deste novo modelo, a provedoria de Justiça avançou com a
instrução em pouco mais de um quarto das queixas (26,8%), vindas
maioritariamente de pessoas singulares (97%).Entre
as queixas instruídas, 27% dizem respeito a questões com a Segurança
Social, vindo em segundo lugar queixas sobre entrada e permanência de
estrangeiros (8%) e em terceiro lugar sobre trânsito (7%).Dentro
das 778 queixas sobre segurança social, 155 dizem respeito a
contribuições, quotizações, dívidas e restituições, 153 são sobre
pensões, aparecendo em terceiro lugar o tema da parentalidade e das
prestações familiares, com 131 queixas instruídas.No
mesmo documento, o provedor de Justiça critica os “graves atrasos” na
atribuição de equipamentos a pessoas com deficiência, denunciando que,
passados 14 anos, o banco de produtos de apoio ainda não esteja
regulamentado.