Protestos na China são "ponto de viragem" e mostram desconfiança
29 de nov. de 2022, 12:01
— Lusa/AO Online
Apesar de não acreditar que
derrubem o executivo chinês, Maya Wang considera que estes protestos são
um sinal claro da desconfiança e descontentamento sentidos pela
população face ao "cada vez mais repressivo" Governo de Xi Jinping e à
forma como lidou com a covid-19."Acho que
as pessoas tendem a esquecer que antes de 2013, ou seja, antes de Xi
chegar ao poder, a China tinha mais ativismo social, às vezes na forma
de protestos. Esses protestos mostram que as pessoas na China anseiam
por valores universais – liberdade e democracia – da mesma forma que os
cidadãos em outros lugares, e que a falta de tal expressão nos últimos
10 anos apenas demonstra a força da repressão de Xi Jinping", avalia a
especialista. "Embora eu não preveja que
esses protestos derrubarem o Governo chinês, eles são um importante
ponto de viragem. Desde os anos 2000, o Governo chinês vendeu a história
de uma ascensão da China. Estes protestos significam um exame de
consciência na China - as pessoas não estão mais tão confiantes nessa
história. As ramificações de longo prazo desses protestos provavelmente
irão além dos próximos dias e semanas", indica.Em
entrevista à Lusa, Maya Wang, investigadora sénior da China na divisão
da Ásia da organização não-governamental (ONG) Human Rights Watch, diz
acreditar que as manifestações se irão prolongar no tempo, mas que o
Presidente chinês as irá "neutralizar rapidamente".Os
protestos contra as restrições impostas pela China na estratégia 'zero
covid' espalharam-se este fim de semana por grandes cidades como Pequim,
Xangai e Nanjing, de acordo com imagens divulgadas nas redes sociais.Os
protestos intensificaram-se após a morte de dez pessoas num incêndio
num edifício alvo de confinamento em Urumqi na quinta-feira passada.Em
alguns casos, os manifestantes lançaram palavras de ordem contra Xi
Jinping e contra o Partido Comunista da China, numa exibição pública
invulgar de desaprovação das políticas do líder do país.A
Human Rights Watch diz ter tido acesso a imagens de vídeo que mostram
“dezenas de polícias” a chegar a locais de protesto para “dispersar a
multidão, de forma violenta”. Em
comunicado, a ONG pediu ainda às autoridades chinesas que "libertem
imediatamente todos os manifestantes detidos injustamente e parem a
censura ‘online’ sobre informações acerca dos protestos"."Até
agora, o Governo chinês recorreu a uma combinação de prisões e censura
para controlar a situação. Imagino que nos próximos dias o Governo
neutralizará a dissidência fazendo concessões locais, inclusivamente
relaxando as restrições da covid-19, prendendo e ameaçando aqueles que
participaram e esperando que esses protestos acabem", anteviu Wang.A
investigadora prevê ainda que, apesar de o Governo chinês ter adotado
uma abordagem de "esperar para ver", em breve Xi Jinping deverá anunciar
a "severidade com que lidará com os envolvidos"."Imagino
que entre alguns presos, eles serão acusados e processados, embora eu
acredite que eles seriam acusados de crimes de criação de distúrbios.
Espero mais alguns protestos, mas também espero que o Governo chinês,
agora bastante hábil em lidar com a dissidência, consiga neutralizá-la
rapidamente", diz.Contudo, para a
investigadora, isso não significa que os protestos “falharam”, frisando
que, com o tempo, as manifestações só "irão aumentar"."As
pessoas ganham esperança protestando. Sabendo que não estão sozinhas,
esse tipo de aprendizagem e solidariedade pode crescer com o tempo, além
do imediatismo dos próprios protestos", conclui.Ao
abrigo da política de ‘zero casos’ de covid-19, a China impõe o
bloqueio de bairros ou cidades inteiras, a realização constante de
testes em massa e o isolamento de todos os casos positivos e respetivos
contactos diretos em instalações designadas, muitas vezes em condições
degradantes.