Projeto-piloto revela uso excessivo de ecrãs e falta de supervisão parental
18 de jun. de 2025, 09:13
— Carlota Pimentel
A maioria dos alunos do 3.º ano da Escola Básica e Integrada da Lagoa
joga videojogos diariamente, com um aumento significativo ao fim de
semana, e vários indicam passar mais de três horas por dia em frente ao
ecrã, ultrapassando “largamente” as recomendações para a idade.Esta
é uma das conclusões do projeto-piloto de intervenção sobre dependência
online e uso de redes sociais que decorreu no ano letivo 2024/2025,
cujos resultados foram apresentados ontem, numa sessão promovida pela
Associação de Pais e Encarregados de Educação da EBI da Lagoa.Ao
Açoriano Oriental, Pedro Tavares, presidente da Associação de Pais e
Encarregados de Educação da EBI Lagoa, explicou que “o principal
objetivo do projeto é compreender melhor o que se está a passar com as
nossas crianças”.O estudo envolveu 101 alunos do 3.º ano de escolaridade, distribuídos por sete turmas de diferentes escolas da Lagoa.Segundo
os dados recolhidos, cerca de um terço dos alunos não tem qualquer tipo
de controlo parental ativo, o que está associado a mais tempo de jogo,
mais gastos e maior exposição a riscos. Pedro Tavares revelou que
foram identificados casos de alunos que jogam “mais seis ou sete horas
por dia” durante o fim de semana, “o que representa um uso excessivo de
ecrãs num curto espaço de tempo”. Conforme adianta, esta situação
pode estar associada à falta de supervisão, ausência de atividades
alternativas ou dificuldades em autorregular o tempo de jogo.“O
potencial impacto no bem-estar das crianças, incluindo isolamento
social, sedentarismo, perturbações no sono e menor envolvimento
familiar”, foi igualmente salientado pelo presidente da associação.Os
dados apontam que 10% das crianças referiu gastar dinheiro online,
sendo que quase todos são rapazes, o que sugere um “consumo digital
regular e pouco acompanhado”.O presidente da associação indicou
também que um em cada dez alunos revelou jogar três horas por dia, e
efetua “compras no valor médio de dez euros por mês”.Além disso, um
em cada seis alunos relatou já ter tido experiências negativas nas
plataformas digitais, que os deixaram desconfortáveis. De acordo com
Pedro Tavares, essas situações envolveram mensagens ofensivas, contacto
com desconhecidos, cyberbullying, acesso a conteúdos impróprios e
pressões para gastar dinheiro ou partilhar dados pessoais.Muitos
admitem ainda dificuldade em parar de jogar quando lhes é pedido,
sobretudo os rapazes. Apesar de a maioria referir praticar desporto, há
alunos que não indicam qualquer outra atividade estruturada além dos
jogos.Os jogos mais mencionados foram o Roblox, Minecraft e Fortnite, e, entre as redes sociais, destacou-se o TikTok.No
inquérito dirigido aos professores, destacam-se a preocupação com a
falta de supervisão parental, a exposição precoce a conteúdos
impróprios, incluindo jogos para maiores de 18 anos, e a perceção de que
alguns alunos mais introvertidos acedem facilmente a plataformas de
risco.Todos os docentes consideraram essencial dar continuidade a
este tipo de intervenção, sugerindo como temas o cyberbullying, a
exposição digital permanente e a cidadania digital.Refira-se que a
intervenção contemplou a avaliação de cada aluno para identificar
padrões de uso digital e, nos casos considerados mais críticos,
acompanhamento psicológico personalizado. Foram selecionados até três
alunos por turma, num total de 18, para sessões individuais semanais com
um psicólogo, durante três meses. Foi dada orientação a alunos e pais,
de modo a implementar mudanças comportamentais no uso da tecnologia.O
projeto pretende ter continuidade no próximo ano letivo, com o
acompanhamento dos alunos agora no 4.º ano e nova implementação junto
das turmas do 3.º ano.