Projeto-piloto da semana de 4 dias gerou mudanças organizacionais que devem ficar
Hoje 09:53
— Nuno Martins Neves
Que análise faz do relatório técnico do projeto-piloto da semana de quatro dias na Administração Pública Regional dos Açores?O relatório técnico é globalmente positivo e confirma que o projeto-piloto atingiu os principais objetivos que justificaram a sua implementação. Desta experiência concluiu-se que foi possível reduzir o tempo de trabalho sem comprometer a continuidade dos serviços públicos, registando-se simultaneamente melhorias na saúde, bem-estar e conciliação entre a vida profissional e pessoal dos trabalhadores. Além disso, a maioria dos indicadores de produtividade manteve-se ou melhorou, demonstrando que a redução horária, quando acompanhada por reorganização do trabalho e modernização de processos, pode ser compatível com um serviço público de qualidade. Importa igualmente sublinhar que o relatório apresenta uma análise equilibrada, identificando vantagens, mas também limitações e desafios, sobretudo em funções de atendimento ao público, trabalho por turnos e equipas de reduzida dimensão.Quais são os próximos passos?O relatório foi-nos entregue a semana passada [n.d.r dia 8] e logo de seguida decidimos torná-lo público para consulta no Portal do Governo. Agora é o tempo de análise aprofundada. As conclusões e evidências produzidas no âmbito deste projeto piloto constituirão um importante contributo para a definição e aperfeiçoamento das futuras políticas para enfrentarmos desafios estruturais significativos, entre os quais se destacam a promoção de modelos de flexibilidade laboral, o rejuvenescimento de uma administração periférica e arquipelágica marcada por um elevado envelhecimento dos seus recursos humanos, a crescente dificuldade de atrair e recrutar jovens para várias carreiras, a valorização do bem-estar dos trabalhadores e da conciliação entre a vida profissional, pessoal e familiar, bem como a necessidade de reforçar a produtividade, a eficiência e a qualidade dos serviços públicos aos cidadãos.O relatório técnico já deixa algumas sugestões para a continuação do projeto, serão atendidas?O compromisso vertido no programa do XIV Governo está executado. Os próximos passos passarão pela análise aprofundada das conclusões do relatório e pela reflexão interna sobre a melhor forma de dar continuidade ao trabalho desenvolvido. Mesmo que a semana de quatro dias não seja prosseguida, entende que há ganhos que vão ficar, como, por exemplo, a reorganização de serviços e o uso mais frequente de ferramentas digitais?Sem dúvida. Essa é, aliás, uma das conclusões mais relevantes do relatório. Independentemente das futuras decisões , o projeto gerou mudanças organizacionais que já fazem parte da realidade de alguns serviços que importará manter. Verificou-se uma revisão de processos, uma racionalização das reuniões, uma maior preocupação com a gestão do tempo e uma utilização de ferramentas digitais e de inteligência artificial.Considera que os resultados apresentados derrubam alguns mitos sobre a redução do horário laboral?Penso que os resultados ajudam a clarificar o debate e a substituir opiniões por evidência. Um dos principais ensinamentos deste projeto é que reduzir moderadamente o tempo de trabalho não significa necessariamente reduzir a produtividade ou prejudicar o serviço público. Pelo contrário, em muitas situações verificou-se manutenção ou melhoria dos indicadores analisados. Também ficou demonstrado que a semana de quatro dias não deve ser entendida como simplesmente “trabalhar menos”, mas sim como uma oportunidade para reorganizar processos, eliminar desperdícios e trabalhar de forma mais eficiente. Ao mesmo tempo, o relatório mostra que não existe uma solução universal. Há contextos/setores onde a implementação é mais simples e outros onde não será mais difícil de implementar.Foi destacado o trabalho da equipa jurídica da DROPEP. Esta foi, também, um das vantagens do projeto-piloto?Podemos dizer que sim. O trabalho da equipa jurídica da DROPEP permitiu antecipar um conjunto de questões comuns aos serviços envolvidos e definir orientações sólidas a aplicar em matéria de gestão de recursos humanos no decurso deste projeto pioneiro na Administração Pública portuguesa, em vez de cada entidade procurar, isoladamente, uma solução para o mesmo problema.As questões puderam ser analisadas de forma articulada, promovendo respostas coerentes e a uniformização de procedimentos para todos os serviços e organismos da Administração Pública Regional que participaram no projeto.