Programa prevê internamento psiquiátrico em todas as ilhas
7 de fev. de 2022, 10:57
— Paula Gouveia
O Programa Regional para a Saúde Mental dos Açores, que está em consulta
pública, propõe a implementação de medidas muito concretas ao nível da
equidade nos cuidados prestados, bem como da reorganização dos serviços
de psiquiatria e de saúde mental, de modo a integrar a saúde mental nos
cuidados primários e incentivar a articulação entre os serviços público,
privado e social.Para promover a equidade no acesso aos cuidados de saúde, a
Estrutura Regional para a Saúde Mental dos Açores, a equipa que
elaborou o Programa, defende a atribuição de camas a doentes
psiquiátricos em ilhas sem serviço de Psiquiatria, para que estes
doentes possam ser internados junto da sua comunidade e receber visitas,
“devendo estas camas estar integradas, ou nos serviços de Medicina
Interna, no caso específico da Ilha do Faial, ou em Unidade de Saúde de
Ilha (USI) no caso das ilhas que não disponham de cuidados
hospitalares”. A Estrutura defende que estes serviços devem ser
dotados de material de videoconferência, para que psiquiatras da ilha
Terceira, de São Miguel, do Faial ou do continente sejam consultores ou
observem os doentes à distância.A Estrutura Regional para a Saúde
Mental dos Açores inclui ainda no Programa Regional para a Saúde Mental
dos Açores, a criação de um novo tipo de emprego protegido para doentes
que cumpram o seu tratamento e que tenham sentido crítico para o seu
processo patológico. Outra medida proposta para aumentar a equidade
do acesso aos cuidados é a criação de uma central de compras para a
compra dos antipsicóticos atípicos, para que se torne possível
financiar a 100% a medicação antipsicótica para todos os doentes, de
todas as ilhas e a receber cuidados de quaisquer instituições. A
proposta é que a compra centralizada aconteça primeiro para a medicação
injetável, devendo posteriormente ser alargada à medicação oral e
eventualmente a outras áreas médicas. E enquanto a medicação oral não é
garantida através da compra centralizada, defende-se a sua
comparticipação a 100%. Criar um sistema de Prescrição Social, que
consistiria numa comparticipação por parte do Governo de alguns tipos de
atividades que, de forma não farmacológica, têm impacto positivo na
saúde da população (por exemplo, exercício físico), é outra das
propostas.Considera-se ainda que todos os tratamentos decorrentes
de mecanismos coercivos devem ser pagos na sua totalidade,
recomendando-se “especial atenção a ser dada ao Tratamento Compulsivo em
Ambulatório – no qual toda a medicação necessária deve ser fornecida de
forma gratuita ao doente que a está a fazer por ordem judicial”,
refere-se no Programa.Pretende-se também que sejam criadas
estruturas forenses, com prioridade para a estrutura de Liberdade para
Prova que possa servir doentes inimputáveis da Região, que se encontram a
cumprir medida de segurança no continente, sustentando-se que esta
estrutura deverá, por motivos de dimensão, ser criada na ilha de São
Miguel. E defende-se, por outro lado, a contratação externa de
profissionais para a realização de perícias forenses e a capacitação de
dois médicos da Região para que se qualifiquem para obtenção do grau de
subespecialidade em psiquiatria forense.Com o mesmo objetivo de
promover a equidade, o Programa defende que sejam criadas condições em
todos os serviços de internamento para a frequência de um espaço
exterior pelos doentes psiquiátricos internados. A Estrutura que
elaborou o programa explica que esta medida é essencial para a
recuperação psicológica, mas é também um Direito Humano; e reparam que
os doentes internados no serviço de Psiquiatria do Hospital do Divino
Espírito Santo têm acesso a um pátio amplo, enquanto os doentes
internados no serviço de Psiquiatria do Hospital de Santo Espírito na
ilha Terceira se veem privados desse Direito, “por uma mera questão de
residência”.É ainda uma prioridade do Programa, a criação de um
serviço, ou a adaptação de algum espaço hospitalar, para que seja
criado um serviço de eletroconvulsivoterapia, devendo dotar-se esse
serviço do necessário material e garantindo a presença de anestesista
para uma realização mínima de 10 procedimentos por semana, com tendência
crescente.Reorganização dos serviços e mais profissionaisO
Programa prevê a criação de acordos de colaboração entre estruturas da
Região e entre estruturas da Região e do continente, promovendo
consultoria e teleconsulta que “devem ser remuneradas”, refere o
relatório.A contratação de profissionais especializados, com
especial enfoque no reforço da pedopsiquiatria na ilha de São Miguel e a
contratação para a Terceira é outra das medidas identificadas no
Programa, que refere ainda “propostas para fixação de mais médicos
psiquiatras no arquipélago, bem como de técnicos de saúde ocupacional e
psicomotricista”; e a necessidade de “contratar mais psicólogos, para
cumprimento dos objetivos de promoção de saúde e prevenção de doença
mental; bem como a dotação, com técnicos multidisciplinares
especializados, das equipas de psiquiatria e saúde mental.Ainda no
que se refere aos recursos humanos, sustenta-se que se devem procurar
sinergias entre entidades públicas e privadas para a contratação de
profissionais para a Região, flexibilizando modalidades de trabalho
disponíveis, permitindo, por exemplo, que possam trabalhar nos serviços
públicos a tempo parcial ou mesmo de alternância.A criação de
equipas comunitárias, como definido pelo Programa Nacional para a Saúde
Mental e pela nova organização e funcionamento dos serviços de
psiquiatria e Saúde Mental, é outra das medidas a concretizar, no âmbito
do Programa Regional para a Saúde Mental dos Açores; tal como a criação
de um hospital de dia na ilha do Faial e a dinamização do de São Miguel
e da Terceira.O Programa Regional para a Saúde Mental dos Açores
propõe ainda a articulação com entidades, no sentido da criação de
unidades de cuidados especializados para pessoas com doenças
neurodegenerativas.Entre outras medidas a adotar, prevê-se também a
avaliação das normas e critérios de referenciação entre os cuidados de
saúde primários e os serviços hospitalares, e emissão de critérios de
referenciação a serem seguidos pelas equipas.