Programa de vistos ‘gold’ “aumentou riscos de corrupção” em Portugal
31 de jan. de 2023, 07:51
— Lusa/AO Online
Na
última edição do CPI, Portugal é criticado por estar a adiar a abolição
daquele “controverso programa”, bem como por ter lançado a Estratégia
Nacional Anticorrupção (ENAC) “sem diretrizes ou plano de
monitorização”, considerando-se que a aplicação de medidas anticorrupção
no país é “fraca” e “lenta”.“Os
resultados nacionais do Índice de Perceção da Corrupção 2022 refletem,
em linha com os de anos anteriores, um combate anticorrupção débil e
estagnado, com percecionados níveis de risco agravados de corrupção e,
igualmente, falta de transparência e controlo no setor da defesa e
segurança nacional”, refere Nuno Cunha Rolo, presidente da representante
em Portugal da TI, citado no comunicado de divulgação do estudo.Neste
último caso, a coligação global anticorrupção considera que o setor da
defesa precisa de maior transparência e fiscalização, assinalando que
“processos de aquisição sigilosos e práticas de transparência financeira
insuficientes enfraquecem as salvaguardas contra a corrupção nas
instituições de defesa” nacionais. No
índice relativo ao ano passado, Portugal é avaliado no conjunto dos
países da Europa Ocidental e União Europeia e obtém 62 pontos, sendo a
classificação de 0 (percecionado como muito corrupto) a 100 (muito
transparente).Portugal mantêm a pontuação
de 2021 e continua abaixo da média da sua região (66 pontos), mas desce
um lugar da 32.ª para a 33.ª posição.Com o
mesmo número de pontos e na mesma posição encontra-se a Lituânia,
depois de Israel e da Coreia do Sul (ambos com 63 pontos) e antes do
Botsuana (60 pontos).Nuno Cunha Rolo
considera que os resultados de Portugal “decorrem da continuada
incapacidade de sucessivos governos e governantes de perceberem a imensa
riqueza das lideranças e políticas anticorrupção abertas,
transparentes, participadas e íntegras, tanto no sistema político e
administrativo, quanto nos setores da economia e sociedade”.“Todas
elas muito contribuem para um país mais justo, seguro, pacífico,
inclusivo e desenvolvido” e “os casos recentes que se vão sucedendo nos
media a ritmo vertiginoso, muito se devem à falta de vontade e visão
políticas – no Governo e no parlamento - em matéria de anticorrupção,
transparência e integridade”, adianta. A
Transparência Internacional Portugal diz que já tinha alertado para “as
deficiências” da Estratégia Nacional Anticorrupção, nomeadamente “por
ignorar praticamente por inteiro a questão da corrupção política”.O
CPI 2022 revela que a região que Portugal integra é novamente a que tem
a melhor pontuação (66 em 100), mas alerta que “o progresso estagnou na
maioria dos países” que a compõem e que “a mudança no cenário de
segurança, desde a invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia, e
uma recessão iminente exigem respostas robustas dos governos”.Considera
que “a influência indevida sobre a tomada de decisões, a aplicação
inadequada das salvaguardas de integridade e as ameaças ao estado de
direito estão a prejudicar a eficácia dos governos”. Segundo
a Transparência Internacional, “a região está numa encruzilhada” e os
decisores políticos necessitam de “ir além de medidas anticorrupção
fragmentadas” para ultrapassar as crises atuais e permitir o
desenvolvimento.Em termos globais, o CPI
relativo ao ano passado “demonstra que, apesar dos esforços concertados e
de muitos ganhos duramente conquistados, não se pode considerar o
progresso contra a corrupção garantido”.“A
escala do problema é enorme: a média global permanece inalterada - com
uma pontuação de 43 em 100, pelo 11.º ano consecutivo - e mais de dois
terços dos países (122) têm um sério problema de corrupção, com uma
pontuação abaixo de 50”.No índice de 2022,
a Dinamarca (90 pontos) volta a ocupar o primeiro lugar, seguindo-se a
Nova Zelândia e a Finlândia (ambas com 87 pontos), enquanto os últimos
lugares continuam a ser ocupados pela Síria, Sudão do Sul (13) e Somália
(12).A África Subsariana é a região com a pontuação média mais baixa (32), depois da Europa Oriental e Ásia Central (35). "A
corrupção tornou o nosso mundo um lugar mais perigoso. Como os governos
falharam coletivamente em fazer progressos neste âmbito, acabaram por
alimentar o atual aumento da violência e do conflito – colocando os
cidadãos em perigo", afirma Delia Ferreira Rubio, presidente da
Transparência Internacional, citada no comunicado. A
responsável adianta que "a única saída” é os Estados trabalharem
arduamente, “erradicando a corrupção a todos os níveis” e “garantindo
que os governos trabalham para todas as pessoas e não apenas para uma
pequena elite".