Profissionais dos cuidados paliativos denunciam falta de rumo e dizem-se desamparados (C/ÁUDIO)
Hoje 11:40
— Lusa/AO Online
Numa
carta dirigida à ministra da Saúde, ao primeiro-ministro e ao diretor
executivo do Serviço Nacional de Saúde (SNS), as equipas comunitárias e
intra-hospitalares de cuidados paliativos, em colaboração com a
Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos (APCP), lembram a “carência
extrema” de recursos humanos e alertam para a necessidade de maior
investimento.Em declarações à Lusa, a
promotora da carta, Tânia Varela, coordenadora da Equipa Comunitária de
Suporte em Cuidados Paliativos (ECSCP) de Cascais, disse que desde o
início de 2025 se perdeu o rumo, explicando que as equipas estão a
funcionar, mas sem terem alguém que faça a coordenação para garantir um
funcionamento semelhante em todo o território nacional."Não
havendo este apoio e também esta voz junto da tutela, o que acontece é
que acabamos por ser um bocadinho esquecidos", contou.Também
em declarações à Lusa, a presidente da APCP, Catarina Pazes, falou de
desleixo na organização e gestão destes cuidados, lembrando que a
comissão que está por nomear tem a responsabilidade de avaliar o que
está a ser feito, suportar as equipas e mobilizar recursos para uma
“resposta de qualidade”.A responsável
exemplificou com o mais recente relatório da Entidade Reguladora da
Saúde (ERS), que concluiu que mais de metade dos utentes morrem à espera
de vaga nos cuidados paliativos, para dizer que, como muitos doentes
“têm todos os anos muito sofrimento não atendido, não acompanhado e não
aliviado”, acabam por recorrer mais a serviços de urgência e a
internamentos.“Estamos a usar mal o
sistema e estamos a usar mal os recursos. Estamos a ser pouco eficientes
porque não há esta aposta nesta área tão essencial”, acrescentou.Catarina
Pazes disse que sem esta comissão nacional não se sente no terreno que a
área é uma prioridade, como o Governo diz: “Mesmo nos próprios
conselhos de administração [das Unidades Locais de Saúde] não é uniforme
a priorização desta área”.Considerou
urgente atualizar o levantamento de necessidades – “os últimos
documentos são de 2024” – e recordou: “As equipas têm problemas diversos
e não são iguais em todo o território”.A
responsável sublinhou que, por falta de condições, é difícil manter os
profissionais a trabalhar nesta área: “Efetivamente, nós não sentimos
uma melhoria, pelo contrário, sentimos que muitos profissionais da área
dos cuidados paliativos na comunidade se mobilizaram para outro tipo de
unidades funcionais do SNS com outras condições”.A
carta, a que a Lusa teve acesso, fala exatamente desta situação: “É
fundamental existir uma estratégia nacional atual no que respeita aos
cuidados paliativos, que reflita as necessidades das equipas e serviços a
nível nacional”, referem os mais de 150 profissionais que assinam a
missiva.Além de exigirem a nomeação
urgente da Comissão Nacional de Cuidados Paliativos, os profissionais
que trabalham na área pedem ainda ao Governo que dê prioridade ao
desenvolvimento destes cuidados nas Unidades Locais de Saúde e nos
institutos portugueses de oncologia, reforçando os recursos humanos
previstos nos normativos legais.À Lusa, a
coordenadora da ECSCP de Cascais apontou a saída de profissionais para
melhores condições de trabalho e alertou: “Há equipas a ficarem sem
médicos e sem enfermeiros. E isto acontece tanto nas equipas
comunitárias como nas hospitalares"."Quem
lá fica, fica altamente sobrecarregado e, portanto, numa oportunidade
para melhores condições, tendencialmente vai sair", acrescentou.Segundo
o mais recente estudo sobre o acesso a cuidados paliativos no SNS
realizado pela Entidade Reguladora da Saúde, em 2024, 53% dos utentes
referenciados para Unidade de Cuidados Paliativos da Rede Nacional de
Cuidados Continuados Integrados (UCP-RNCCI) morreram enquanto esperavam
por vagas, acima dos 47,5% em 2023 e 48% em 2022.O
documento aponta ainda para “assimetrias territoriais relevantes", com a
ERS a sublinhar que o aumento da esperança média de vida e a elevada
prevalência de doenças crónicas e incapacitantes tornam os cuidados
paliativos uma prioridade crescente nos sistemas de saúde.