Professores exigem redução das tarefas burocráticas nas escolas
1 de fev. de 2023, 08:43
— Lusa/AO Online
Há muito que os professores alertam para o aumento de trabalho
burocrático, um problema reconhecido em janeiro pelo ministro da
Educação, João Costa, que anunciou que iria apresentar um plano para
eliminar “documentos e plataformas que não contribuem para a qualidade
do processo de ensino e aprendizagem”.
João Costa prometeu que iria “simplificar documentos administrativos” e
“eliminar redundâncias”, mas as medidas ainda não chegaram e nas escolas
os professores dizem-se “exaustos e frustrados”.
Catarina Carvalho é professora há 22 anos e tem agora a seu cargo a
direção de sete turmas. Os diretores de turma e os professores do 1.º
ciclo são os mais penalizados, segundo os sindicatos, que alertam para o
facto de raramente conseguirem cumprir a legislação, que prevê um
horário de trabalho máximo de 35 horas semanais.
“Eu só tenho aulas da parte da manhã. Começo as aulas às oito, mas
invariavelmente fico a trabalhar até às oito da noite, muitas vezes a
tratar de burocracias que acabam por prejudicar o trabalho pedagógico”,
contou à Lusa a professora de Inglês da Escola Maria Veleda, em Loures.
A docente do 6.º ano tem de “preparar quatro tipo de materiais
diferentes para cada dia de aulas”, porque tem alunos brasileiros, que
chegaram a Portugal sem nunca terem tido uma aula de inglês, alunos
estrangeiros “que não percebem português”, e “alunos que acompanham
melhor a matéria e outros com dificuldades”.
Todos os dias, a diretora de turma tem um conjunto de tarefas que não
podem esperar, como verificar o registo de faltas dos alunos.
“Tenho sete turmas e tenho de contar as faltas de todos os alunos,
verificar se há casos que precisam de justificação dos encarregados de
educação. Se isso acontecer, tenho de contactar os pais, o que nem
sempre é fácil, porque os pais esquecem-se e nós temos de andar atrás
deles a insistir”, exemplificou. Naquela
escola de Loures há alunos em risco de insucesso e de pobreza. “Há
situações que temos de sinalizar para a Comissão de Proteção de Menores
e, se o caso segue para tribunal, somos nós que temos de elaborar todo o
processo”, acrescentou. Os sindicatos
alertam que também são pedidos aos professores relatórios para entregar
aos médicos, tribunais e outras entidades.
Também os diretores escolares têm chamado a atenção para as inúmeras
tarefas das escolas, que vão desde realizar as matrículas dos alunos a
fazer listagens de dados sobre alunos e encarregados de Educação e
atualizar esses mesmos registos biográficos.
Catarina Carvalho adianta que entre todas estas tarefas, há momentos em
que recebe telefonemas da escola porque “um aluno estragou o casaco de
outro e é preciso a intervenção da diretora”, obrigando a adiar
novamente o plano de preparar as aulas para o dia seguinte.
“Não são raras as vezes em que às oito da noite estou a ligar para os
encarregados de educação ou estou a responder a mensagens de whatsapp”,
desabafou, explicando que deu o número de telefone pessoal aos pais
porque na escola “há apenas um telefone para todos os diretores de
turma”. Muitas vezes, os temas são sensíveis e os professores querem garantir a privacidade das conversas, explicou.
São os diretores de turma que tratam dos processos quando chega um
aluno com necessidades educativas especiais ou quando chega uma aluna,
como a menina da Guiné - que chegou a Portugal há três anos para ser
operada e andava no 3.º ano de escolaridade - que “dizia que não tinha
fome para almoçar”, recordou. “Comecei a
achar estranho porque ela levantava-se às cinco da manhã, não comia nada
durante a manhã, e depois dizia que não tinha fome para almoçar.
Chamámos a mãe e apercebemo-nos das dificuldades económicas”, recordou a
docente, explicando que a mãe fazia limpezas em casas, não estava
legalizada e por isso a filha não tinha acesso ao Apoio Social Escolar
(ASE). A escola uniu-se: uns deram roupa,
outros deram dinheiro para compras, comida e até para ir cortar o
cabelo ou fazer o cartão do cidadão, contou à Lusa a diretora que, num
dos dias, fez à aluna um horário com as disciplinas, as salas de aula, e
os autocarros que tinha de apanhar para conseguir chegar à escola.
Numa turma de 28 alunos “cada um tem a sua problemática” e, neste
momento, dez alunos deveriam chumbar no final do ano, mas Catarina
Carvalho tem “quase a certeza que não vão chumbar, porque a retenção tem
caráter excecional”. “A lei diz que
temos de justificar quando temos pelo menos 50% dos alunos com
negativas. Temos de deixar tudo registado. Todas as diligências que
levámos a cabo para que não houvesse insucesso”. A escola de Loures está neste momento em avaliações, porque funciona por semestres, mas nem por isso o trabalho diminuiu.
“Na segunda-feira estive a trabalhar das 8:00 às 19:00”, disse
Catarina Carvalho, adiantando que fez apenas duas pausas, para ir buscar
o filho à escola "e depois para lhe dar o jantar”, e garantindo que
esta é a sua rotina diária. A redução da
burocracia nas escolas é uma luta antiga dos professores que entretanto
começaram um processo de luta, com greves desde dezembro do ano passado.
A recuperação do tempo de serviço e o fim das vagas e quotas de aceso
ao 5.º e 7.º escalões são outras das revindicações dos docentes que no
ultimo mês e meio já participaram em três manifestações nacionais em
Lisboa.