Professores e alunos dos Açores divulgam obra de António Dacosta em escolas de todo o país
Hoje 10:03
— Lusa/AO Online
A obra, ainda pouco conhecida, de um
dos pioneiros do surrealismo em Portugal tem despertado o interesse de
alunos de norte a sul do país.“Eles ficam
até o fim, fazem perguntas, participam. Por exemplo, há dois anos, nas
Caldas da Rainha, num auditório enorme de alunos de artes, estavam à
espera uns dos outros para ter o microfone, para fazerem perguntas sobre
determinadas obras”, afirmou, em declarações à Lusa, o professor de
História da Cultura e das Artes José Isaac Ávila, que coordena o
projeto.O Clube Europeu António Dacosta
foi criado em 2014, ano em que se comemorou o centenário do nascimento
do pintor, poeta e crítico de arte natural de Angra do Heroísmo, na ilha
Terceira.Formado, maioritariamente, por
alunos de artes da Escola Básica e Secundária Tomás de Borba, em Angra
do Heroísmo, que deu o nome de Dacosta ao seu auditório, o clube começou
por divulgar a obra do pintor dentro de portas e noutras escolas da
ilha Terceira, através de aulas abertas, exposições e sessões de cinema.Em 2017, o projeto didático-pedagógico viajou até ao norte do país para levar o nome de Dacosta a alunos de outras escolas.A
deslocação começou por Caminha, terra onde o pintor António Pedro tinha
uma casa e onde se supõem que António Dacosta tenha pintado as suas
principais obras do surrealismo, nos verões de 1939 e 1940.Foi
com António Pedro e Pamela Boden que António Dacosta participou na
primeira exposição surrealista em Portugal, na Casa Repe, no Chiado, em
Lisboa, em 1940, numa altura em que estava a decorrer a Exposição do
Mundo Português, promovida pelo Governo de Salazar.No
primeiro ano, o clube passou por Caminha, Porto, Braga e Famalicão,
onde está localizada a Fundação Cupertino de Miranda, única dedicada ao
surrealista em Portugal.“Correu muito bem,
foi uma experiência muito gratificante para os nossos alunos e para nós
professores. Conhecemos outras realidades”, lembrou José Isaac Ávila.Desde então o clube já visitou duas dezenas de escolas, de norte a sul do país.Ao
longo do ano, os alunos da Tomás de Borba e das restantes escolas
escolhidas, preparam trabalhos, avaliados na disciplina de desenho,
inspirados na pintura ou na poesia de Dacosta, para apresentarem em
exposição.Para além da mostra, José Isaac
Ávila dá uma aula aberta sobre a vida e obra do pintor, que consegue
“prender auditórios” com mais de 150 alunos.Para o professor, a justificação está sobretudo nas obras de Dacosta, que são “fabulosas em termos de expressão”.“É
um recurso excelente e é a parte central deste projeto. Sobretudo no
surrealismo, são obras que refletem muito o conflito da Guerra Civil
Espanhola e da II Guerra Mundial. A grande produção de Dacosta, com 25,
26 anos é dessa altura”, salientou.Apesar de integrar o programa da disciplina de História da Cultura das Artes, a obra de Dacosta é ainda pouco conhecida.“Normalmente,
o que vem no programa é a Serenata Açoriana, que é a obra mais
conhecida dele. De resto, aquelas outras obras, resultado dos
pensamentos e pesadelos dele sobre a Guerra Civil Espanhola e sobre a
Segunda Guerra Mundial são quase completamente desconhecidas”, admitiu
José Isaac Ávila.O professor acredita que esta iniciativa dá maior visibilidade ao pintor e à própria ilha Terceira.“A
nível nacional, o Dacosta é uma figura que se for projetada como
algumas são – e ele tem todo o valor para isso – é uma mais-valia para a
ilha e para a região”, sublinhou.Vencedor
do prémio Amadeo de Souza-Cardoso, com “A Festa”, em 1942, e bolseiro
em Paris, António Dacosta é também desconhecido para muitos alunos
terceirenses, que ficam fascinados quando descobrem que o pintor vivia a
poucos quilómetros da escola que frequentam.“Quando
eu projeto as obras da infância e da adolescência, antes de ele ir para
Lisboa, estudar, eles dizem: mas, este artista era daqui, morava ali
perto da Memória?”, revelou.A avó de uma das alunas que integram, este ano, o clube chegou mesmo a ser pintada por António Dacosta.A
deslocação ao continente implica custos avultados, mas o projeto conta
com o apoio do município de Angra do Heroísmo e das autarquias das
cidades por onde vai passando.Para além de
darem a conhecer a obra de Dacosta, os alunos açorianos aproveitam para
conhecer outras cidades e visitar museus e igrejas, a que dificilmente
teriam acesso de outra forma.“Este ano, em
Santarém, visitámos igrejas góticas. A da Graça, por exemplo, tem a
rosácea mais espetacular do Gótico em Portugal. E eles ficam
deslumbrados, porque enquanto no continente nós podemos, no mesmo dia,
deslocar-nos a determinadas museus ou atividades, aqui não”, apontou
José Isaac Ávila.“Há dois anos, quatro dos monumentos que nós visitámos, por coincidência, saíram no Exame Nacional”, acrescentou.O
docente lamenta que, devido aos custos da deslocação, os alunos do
continente não possam visitar também os Açores, dando a conhecer outros
artistas, num verdadeiro intercâmbio."Estamos a tentar também educar para a Arte, com este projeto, não só incentivar os nossos alunos", reforçou.