Professor de direito propõe que Açores e Madeira elejam juízes para o TC
11 de jun. de 2024, 09:19
— Lusa/AO Online
“Eu
acho que as assembleias legislativas regionais devem, de facto, eleger
um juiz para o Tribunal Constitucional. A legitimidade de um Tribunal
Constitucional é sempre muito questionável de um plano político,
filosófico, jurídico, etc. É um órgão que fiscaliza os órgãos
legislativos e, por isso, a sua legitimidade democrática indireta provém
do próprio órgão legislativo que ele fiscaliza. Isso é válido para os
três parlamentos, mas a verdade é que só um dos órgãos legislativos é
que elege juízes para o Tribunal Constitucional”, afirmou.Natural
dos Açores, Armando Rocha, professor da Faculdade de Direito da
Universidade Católica e especialista internacional em Direito do Mar e
no Direito das Alterações Climáticas, falava, em declarações aos
jornalistas, à margem de uma intervenção nas comemorações do Dia de
Portugal em Angra do Heroísmo, nos Açores.Segundo
o docente, se o Tribunal Constitucional dispõe de competência para
verificar a constitucionalidade de decretos legislativos regionais, é
importante, “para ter maior representatividade e legitimidade
democrática”, que “também as assembleias legislativas regionais
contribuam para a sua composição final”.Em causa está, por exemplo, a visão do Tribunal Constitucional sobre a gestão partilhada do mar.“Temos
visto que os órgãos da República, e em particular, o Tribunal
Constitucional, aproveitam-se desta maleabilidade e indefinição do
conceito para dizerem: o máximo para o Estado, o mínimo para a região. E
fazem-no porque têm esta perspetiva naturalmente centralista”, apontou.Armando
Rocha admitiu que não seria necessário uma revisão constitucional, para
aplicar a gestão partilhada do mar, porque “sendo a Constituição
silenciosa permite que haja todas estas soluções”, mas na prática
“achou-se que a gestão ia estar resolvida em definitivo nos estatutos
[político-administrativos] e pelo contrário não serviu absolutamente
para nada”.“Julgo que é preciso que haja
uma revisão constitucional para colocar a questão da gestão partilhada
no texto constitucional, mas não é suficiente”, apontou.“O
histórico que nós temos em relação a competências das regiões é de que
tem havido em cada revisão constitucional um aumento dos poderes das
regiões, que depois é reduzido pela jurisprudência do Tribunal
Constitucional. Não nos vale de muito achar que resolvemos a questão por
via da revisão constitucional, se depois temos órgãos da República que
interpretam os avanços de uma forma restritiva”, acrescentou.Para
o professor de Direito, é importante “dar à região autónoma o poder de
definir que atividades serão exercidas ou não são exercidas no mar dos
Açores, se quer ter mais ou menos atividades económicas, se quer
proteger mais ou menos o ambiente marinho”.Armando
Rocha lembrou que os Açores querem implementar uma Rede de Áreas
Marinhas Protegidas em 30% do seu mar, alegando que historicamente são
as regiões autónomas a promover estas iniciativas.“É
do interesse da própria região ter uma palavra a definir, se quer ou
não quer criar áreas marinhas protegidas, se quer ter mais ou menos
pesca, que espécies vai proteger, dentro do quadro da União Europeia,
que é também ele muito limitador”, defendeu.O docente defendeu que as populações locais devem ter “uma palavra final e mais existencial sobre a alocação de recursos”.“As
populações locais têm um capital de conhecimento que é maior, sabendo
que zonas são mais ricas do ponto de vista piscícola, que zonas são mais
importantes para a reprodução de espécies para garantir que existe
renovação natural de ‘stocks’ pesqueiros”, exemplificou.