Produtores de leite portugueses estão no limite e pedem preços iguais aos da UE
19 de nov. de 2021, 18:42
— Lusa/AO Online
“Pela
sobrevivência do setor 0,38 € /litro”, “Exigimos um preço do leite justo
pago à produção”, “Anunciamos a morte do setor”, “É urgente justiça no
setor”, “Lutaremos até ao fim”, “É imoral, uma vergonha”, “Quem fica com
o nosso dinheiro?”, “Antes tínhamos um teto, agora não temos nenhum”.
Estas eram algumas das frases que se podiam ler nos cartazes que os
produtores de leite portugueses mostravam hoje na manifestação marcada
para a entrada da cooperativa de leite Agros.O
custo do litro de leite pago ao produtor em outubro transato em
Portugal foi de 30 cêntimos, enquanto que a média paga na União Europeia
é 38 cêntimos, um preço que os produtores de leite exigem que lhes seja
pago já este mês de novembro, sob a pena de terem de fechar dezenas de
vacarias em Portugal.“Os custos de
produção têm vindo a subir de uma forma brutal. Nós suportámos algum
tempo com algum esforço a nossa parte, mas chegámos a um ponto que não
dá mais. Estamos no limite. Isto é o fim da linha”, declarou à Lusa
António Araújo, produtor de leite há cerca de 15 anos, e um dos mais de
cem produtores de leite do Norte de Portugal que hoje se concentrou em
frente da Agros, criada em 11 de abril de 1949 e que agrega mais de 40
cooperativas de leite nacional.Dezenas de
tratores estacionados junto à cooperativa de leite Agros serviam como
uma espécie de escudo protetor aos produtores de leite portugueses que
se concentraram em frente àquela estrutura para entregar aos
responsáveis da Agros uma carta aberta, assinada pelos Produtores de
leite Unidos, onde é pedido que seja pago à produção no “mínimo 38
cêntimos por litro de leite produzido” o preço médio praticado pelos
países da União Europeia.Patrícia Sousa,
segunda da uma geração de produtores de leite com 150 animais, também
quer que seja aumentado o preço do leite pago à produção, para que
consigam sustentar os negócios da família.“O
meu pai sujeitou-se a comprar uma sociedade para nós [Patrícia e o
irmão], continuarmos lá a trabalhar, somos jovens agricultores, e não
vemos futuro nisto, caso isto continue assim”, lamenta a jovem
agricultora, lembrando que Portugal é o “país da Europa mais mal pago em
relação ao leite” e que as despesas que teve para a certificação do
bem-estar do animal foram pagas sem qualquer ajuda da cooperativa.Manuel
Januário, produtor de leite há mais de 10 anos, tem 120 cabeças de
gado, afirma que o preço do leite pago à produção em Portugal é uma
“injustiça”.“Como é que um litro de leite
pode custar menos do que um café”, questiona, afirmando que “ninguém
sonha" os custos de produção que tem o leite.Segundo
Manuel Januário, o dinheiro que está a ser pago à produção nem sequer
dá para pagar as rações, que “estão a aumentar todas as semanas”, nem
para pagar o gasóleo.“Estamos todos cheios
de dívidas. A Agros não faz nada por nós (…) A ministra da Agricultura
ninguém a vê, ninguém sabe dela. Não faz nada por nós, não faz nada pela
agricultura, não faz nada pelo leite”, acusa o produtor Manuel
Januário, pedindo que seja efetivamente aumentado o preço de leite pago à
produção.“Se esse aumento for feito nas
grandes superfícies, as pessoas não sentem e para nós era muito bom.
Agora estarem a dar-nos esmolas de um cêntimo não vale a pena. Senão
isto vai tudo para o galheiro”, defende Manuel Araújo, acrescentando que
está previsto fecharem até ao final de 2021 100 vacarias.António
Martins, da cooperativa de Barcelos que tem cerca de 100 funcionários,
também criticou a indiferença da ministra da Agricultura ao setor do
leite.“Acho que a ministra da Agricultura
demonstrou ao longo do seu percurso que nunca deu importância a um setor
tão vital [leiteiro]. Porque as políticas agrícolas do país é que
definem se realmente esta atividade é ou não é rentável. As ajudas que
existiram, os projetos que ficaram na gaveta, a indefinição que existe a
nível de futuro, tudo isso complica-nos e muito”.António
Martins, antes de entrar para uma reunião com responsáveis da Agros,
disse aos jornalistas que se está a destruir uma atividade que “era e
pode ser sustentável”."Sabemos que de há
cinco anos para cá, a diminuição de explorações é drástica e isso é
preocupante. É preocupante para mim como agricultor, porque a minha
exploração pode acabar dentro de meses, como também é preocupante para
as organizações que vivem da agricultura”, defendeu.O
leite está a ser pago ao produtor em média a 32 cêntimos por litro de
leite, mas há promoções nos hipermercados a 39 cêntimos, explicou
António Martins, referindo que desse valor tem de se feita a
transformação, recolha e a margem dos hipermercados.“Tudo
isso é gozar um bocado com o nosso trabalho. A culpa pode não ser dos
supermercados. A culpa se calhar foi do comodismo ao longo dos anos”,
concluiu.Os produtores de leite conseguiram entregar a carta aberta aos responsáveis da Agros.