Produtores de leite acusam Governo de “abandonar” o setor
1 de jun. de 2022, 11:00
— Lusa/AO Online
“A produção de leite
parece abandonada pelo Governo. O setor leiteiro é aquele que perde mais
apoios na próxima PAC [Política Agrícola Comum]”, sustenta a associação
num comunicado divulgado a propósito do Dia Mundial do Leite, que hoje
se assinala.Adicionalmente, refere, “nas
medidas extraordinárias devido à guerra na Ucrânia, os apoios propostos
representam menos 50 euros/vaca do que os vizinhos espanhóis vão
receber, menos 37%”.Asseverando que
“alimentar as vacas com o atual preço do leite é insustentável”, a
Aprolep insiste na “indexação do preço do leite à evolução dos custos de
produção”, mas reclama que, “no imediato, compete à indústria e à
distribuição subirem com urgência o preço do leite ao produtor para 50
cêntimos, de modo a salvar a produção de leite em Portugal”.“Caso contrário – avisa – ficam sem fornecedores”.De
acordo com a associação, “com o preço do leite abaixo dos custos de
produção, com o pior preço do leite entre os 27 países da União Europeia
e com apoios insuficientes, cada vez mais produtores e de maior
dimensão abandonam o setor”: “Entre março de 2021 e março de 2022 mais
200 produtores abandonaram a atividade em Portugal”, avança.Sem
uma “atualização urgente” do preço do leite e uma “inversão de
atitudes”, a Aprolep garante que “a produção de leite português caminha
para a extinção” e avisa que “quem deixa as vacas de leite não volta a
esta atividade”.No comunicado
divulgado, a associação volta a alertar para que “os custos de produzir
leite dispararam nos últimos meses”, precisando que, “entre maio de 2021
e maio de 2022, o preço do gasóleo agrícola aumentou 97%, o adubo 140%,
o milho 77% e o bagaço de soja 45%”.“Tudo
isto representou um aumento no custo de alimentação das vacas de 59% e
cerca de 53% no custo total para produzir um litro de leite, segundo
dados de um grupo de produtores”, enfatiza.Por outro lado, “no mesmo período, o preço do leite vendido aumentou apenas 23%”.Segundo
a Aprolep, atualmente “muitos produtores estão a pagar mais do que 50
cêntimos por kg [quilograma] de ração comprada e a vender o leite a um
preço médio de 40 cêntimos/litro no continente português e de 33
cêntimos nos Açores, enquanto na Holanda o preço de referência para
junho atinge os 56 cêntimos/litro de leite”. A
este cenário acresce que, “nas regiões do interior e na zona sul do
país, houve uma menor produção de forragem”, havendo “situações de
severas limitações de água para poder produzir milho silagem,
nomeadamente barragens apenas com um terço da água disponível”. Como
resultado, “aqueles que costumam comprar milho silagem terão de pagar
muito mais por kg de silagem, quase o dobro do valor de 2021, porque o
seu valor está ligado ao valor do milho grão”. Recordando
que, em julho de 2021, o Ministério da Agricultura anunciou a criação
de uma subcomissão na Plataforma de Acompanhamento das Relações na
Cadeia Agroalimentar (PARCA), para “monitorização e análise do setor do
leite e produtos lácteos” e “elaborar propostas de intervenção que
resolvam a crise e os problemas que afetam atualmente os produtores”, a
Aprolep diz que “o relatório foi divulgado em janeiro de 2022”, mas,
passados cinco meses, “desconhece qualquer medida tomada pelo Governo
sobre esse assunto”. “No Dia Mundial do
Leite e no mês que Portugal dedica um pouco de atenção ao setor
agrícola, devido à realização da Feira Nacional da Agricultura, a
produção de leite não pode ser esquecida. Os agricultores portugueses
não pararam durante a pandemia e reforçaram o seu esforço nos últimos
meses apesar das dificuldades. Se Portugal quer continuar a ter produção
de leite, não pode deixar cair os que resistem na atividade”, conclui a
associação, defendendo ser “urgente um preço justo para o leite”.