Procuram-se as castas certas para o clima dos Açores

Hoje 11:11 — Daniela Arruda

Nem todas as castas gostam do clima dos Açores e para perceber quais são as que melhor se adaptam e podem resultar nas condições do arquipélago, o Serviço de Desenvolvimento Agrário de São Miguel está a experimentar diferentes variedades.No campo de ensaios de São Gonçalo, o trabalho passa por escolher diferentes castas, cultivá-las, tratá-las e acompanhar o crescimento das uvas ao longo do ano. É através desta observação que se percebe como reagem ao clima, às doenças, à humidade e como evoluem.O objetivo de quem se dedica àquelas castas é perceber quais podem dar boas uvas e, mais tarde, vinhos de qualidade.A aposta é sobretudo nas castas brancas, que são o forte dos Açores. Mas, com o aumento da procura por vinho tinto, faz sentido descobrir quais as castas tintas que melhor conseguem adaptar-se ao clima do arquipélago.  E esse tem sido o trabalho de António Medeiros, técnico superior responsável pelos vinhos. Enquanto algumas variedades brancas, como o Terrantez do Pico, o Verdelho e o Arinto dos Açores, já deram provas da sua qualidade e capacidade de adaptação,  nas tintas ainda há muito por experimentar. O Merlot é, neste momento, uma das variedades que melhor se tem adaptado aos Açores. Tem mantido uma produção consistente, mesmo depois de muitos anos. E isso é importante, tendo em conta que há castas que, nos primeiros anos, podem ter bons resultados, mas que depois deixam de dar bons cachos ou até deixam de produzir. Além disso, há variedades que são mais sensíveis às doenças e ao clima.  Este ano, por exemplo, algumas das castas que estiveram em teste tiveram resultados abaixo do esperado. Neste verão houve muita chuva, nebulosidade e humidade, o que trouxe mais problemas de podridão às uvas. É também por isso  que estes campos de ensaio são importantes: permitem perceber, na prática, o que funciona e o que não funciona.Mais de 900 quilos de uva brancaDurante a vindima, o trabalho é feito ao pormenor. Quem dá o seu tempo à colheita observa as uvas, conta os cachos e, no fim, pesa e compara os resultados dos diferentes tratamentos que foram aplicados dentro da mesma casta. Tudo para perceber de que forma reage cada variedade.Em São Gonçalo, o objetivo não é produzir grandes quantidades de uva. O mais importante é encontrar castas com boas características e que possam contribuir para a produção de melhores vinhos. Este foi um bom ano para as uvas brancas, que deram mais do que no ano passado. Depois de tudo pesado, foram mais de 900 quilos. Quanto às uvas tintas, a expectativa é também de uma boa colheita. O trabalho que se faz nos Serviços de Desenvolvimento Agrário de São Miguel é sobretudo experimental. Por isso, o vinho produzido serve para provas e ofertas institucionais, não sendo comercializado. Ainda assim, o trabalho tem dado frutos. O vinho produzido no campo de ensaios tem sido apreciado por várias pessoas e recebido elogios, o que mostra que, mesmo num território onde a produção de vinhos enfrenta condições climatéricas particulares, há espaço para produzir “vinhos com um sabor simpático”, diz António Medeiros.