Procurador Rosário Teixeira diz que MP não tem interesse em derrubar governos
5 de jul. de 2024, 11:17
— Lusa/AO Online
“O
Ministério Público não tem um interesse em derrubar governos nem faz
parte das suas funções gerar essas consequências políticas”, disse o
magistrado do Ministério Público, em entrevista ao Jornal da Noite da
SIC, garantindo que “isso não aconteceu” em nenhum dos processos que
ditaram a queda do Governo de António Costa e do executivo regional da
Madeira. “Pura e simplesmente, houve
diligências de recolha de prova, houve situações de detenções colaterais
por vezes com o próprio poder político”, que “geraram essas
consequências que não foram queridas, pretendidas nem pedidas pelo
próprio Ministério Público”, defendeu.A
consciência de que as investigações podem ter impactos políticos,
considerou, “não deve restringir o Ministério Público de atuar”. Sobre o antigo primeiro-ministro António Costa, o procurador sustentou que não é suspeito no caso Influencer.“Se
aquele cidadão foi ouvido e não como arguido, mas como testemunha ou
declarante, essa pessoa não é suspeita naquele processo, porque, se for
suspeita naquele processo, não pode deixar de ser constituída arguida”,
salientou.Questionado sobre se os
restantes 26 Estados-membros da União Europeia “tiveram informação
privilegiada” relativamente ao estatuto do ex-primeiro-ministro aquando
da eleição de António Costa como presidente do Conselho Europeu, na
semana passada, Rosário Teixeira negou.“Se calhar tiveram uma correta leitura do que é a realidade jurídica portuguesa”, comentou.Instado
a comentar o caso de um governante que foi escutado durante quatro
anos, como o ex-ministro socialista João Galamba, no âmbito do mesmo
processo Influencer, o magistrado referiu que a escuta “deve ser
proporcional” e “depende da situação em concreto”.Rosário
Teixeira deu o exemplo de “negócios que demoram tanto tempo” a
realizar-se que “é necessário um período de escuta alargado, que pode
ser interpolado”. “São realidades que são complexas, são excecionalíssimas”, rematou.Na
entrevista, o procurador nega que o Ministério Público seja “uma
magistratura indisciplinada” e “com rédea solta” ou que tenha, “como
dizem, quase uma consciência política”. “A
ideia de o Ministério Público ter algum comprometimento político é um
absurdo total. Não há uma congregação de vontades políticas, é um
absurdo imputar isso ao Ministério Público”, vincou.Confrontado
com o Manifesto pela Reforma na Justiça, apresentado inicialmente por
50 subscritores de diversos quadrantes da sociedade e ao qual aderiram
entretanto outras 50 personalidades, Rosário Teixeira defendeu que
aponta “algumas ideias que são preocupações de todos”, como a morosidade
ou a violação do segredo de justiça, mas frisou que não indica soluções
para essas situações, deixando ainda outra crítica.“O
desejável é que essa reforma não seja feita contra alguém e passa um
pouco por esses manifestos ser contra o Ministério Público. Fazer uma
reforma não pode ser contra alguém, tem de ser feita com todos”, disse.O
magistrado do Ministério Público assumiu ainda vislumbrar uma
“tentativa de impor modelos diferentes” e considerou que essas mudanças
no sentido proposto pelo manifesto seriam uma revolução e não uma
reforma: “Por exemplo, um Ministério Público designado
administrativamente ou voltar ao tempo de um juiz de instrução a dirigir
a investigação… isso é andar para trás, não seria de todo desejável. No
meu entender, o modelo atual é o ideal”.Sobre
declarações recentes da ministra da Justiça, Rita Alarcão Júdice, que
defendeu que o próximo procurador-geral da República deve “pôr ordem na
casa”, Rosário Teixeira desvalorizou, considerando que têm sido feitas
interpretações descontextualizadas.“Significa
pôr de acordo com aquilo que é o perfil que o poder político entende
que deve ter o procurador-geral”, disse, rejeitando um eventual futuro
como Procurador-Geral da República: “Sou um homem do caso concreto, não
me passou sequer pela cabeça essa possibilidade”.No
entanto, Rosário Teixeira admitiu sobre o perfil para a sucessão a
Lucília Gago que “gostava que fosse alguém de dentro do Ministério
Público”.