Privatização do handling traz “risco estrutural” avisa comissão de trabalhadores
Hoje 09:06
— Nuno Martins Neves/Lusa
A privatização do serviço de assistência em escala da SATA, pode trazer um “risco estrutural” ao serviço aéreo interilhas, colocando em risco não só o serviço prestado, como os trabalhadores da própria empresa. O alerta foi dado pela Comissão de Trabalhadores da SATA Air Açores, e foi secundado pelos sindicatos ouvidos ontem na Comissão de Economia da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, no âmbito da resolução da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores n.º 5/2026/A, de 26 de janeiro – “Acompanhamento do processo de privatização da SATA Internacional - Azores Airlines, S. A”: processo de separação e privatização do serviço de ‘handling’ da SATA.O primeiro a ser ouvido foi Dário Ponte, presidente da Comissão de Trabalhadores da SATA Air Açores, que considerou o handling - serviço que se encontrava inserido na companhia interilhas, mas que foi agora alvo de uma cisão, com a criação da empresa SATA Handling - essencial para autonomia regional.“É um serviço público essencial, sem o qual não existirá verdadeira Autonomia, nem a coesão territorial. É com grande preocupação que olhamos para a narrativa que tenta apresentar a privatização total do ‘handling’ como uma solução milagrosa para salvar a SATA, a troco de um acordo com a Comissão Europeia, que não fomos chamados a opinar”.Lembrando que o transporte aéreo nos Açores “não é um luxo” e que se nos aeroportos de maior tráfego não haverá grande risco, os restantes poderão enfrentar uma diminuição da qualidade do serviço, devido ao investimento privado que será “mínimo ou inexistente. Isso levará à degradação dos serviços, redução de equipas, menor capacidade de resposta e um risco real de isolamento nas ilhas mais pequenas”.Mas privatizar não impactará só quem viaja, também os funcionários, com Dário Ponte receoso que aumente a precariedade e que a operação fique menos segura, porque “a redução de custos laborais conduz inevitavelmente à substituição de profissionais experientes por contratos precários e menor formação.Pegando no exemplo da Groundforce, o presidente da Comissão de Trabalhadores da SATA Air Açores diz que a entrega deste serviço essencial a privados sem garantias públicas pode ser um problema maior no arquipélago.“Se acontece em Lisboa e Porto, imagine-se o impacto no arquipélago em que cada atraso pode comprometer uma evacuação médica, um abastecimento urgente e uma ligação interilhas essencial”.Dário Ponte considerou que a moral dos trabalhadores está em baixo e lamentou que o conselho de administração não tenha envolvido os funcionários na discussão.Ainda da parte da manhã foi ouvido Fernando Henriques, dirigente do SITAVA (Sindicato dos Trabalhadores de Aviação e Aeroportos), que apelidou de “extremamente perigoso” a entrega do serviço de assistência em escala na Região a privados.“Não temos nenhum dogma contra as empresas privadas, mas entendemos que empresas essenciais da região e do país devem estar sob controlo público”, afirmou, perante os deputados.Já Vítor Mendes, também do SITAVA, referiu, sobre a privatização do ‘handling’ da SATA, que este processo foi “apresentado como inevitável pelo Governo dos Açores”, mas é “arriscado e profundamente errado”, e “não corresponde às exigências da Comissão Europeia”.O representante disse que se “insiste na solução mais cara e arriscada”, que “compromete a operação”, pois “criar uma empresa significa duplicar custos”. Sobre esta opção, acrescentou, desconhece-se uma “avaliação de impacto económico independente”. “Esta é a pior solução (…). Não houve planeamento nem estudo do impacto da operação da SATA no curto prazo”, afirmou.Filipe Rocha, do SINTAC (Sindicato Nacional Dos Trabalhadores da Aviação Civil), referiu, também em sede de comissão parlamentar, que discorda “claramente da privatização do ‘handling’ e de este sair do controlo do operador aéreo”, sendo “a favor da separação contabilística”.O sindicalista considerou que a compra deste serviço fora vai aumentar os custos”. Na sua leitura, “alienar o ‘handling’ é alienar a receita” da SATA, no âmbito de um processo em que os trabalhadores se sentem “completamente abandonados pelo acionista”.Filipe Rocha afirmou, por outro lado, que, no âmbito dos compromissos politicamente assumidos com a CE, “não se cumpriram pressupostos previstos” para reduzir custos: “Viram-se para o mais fácil, que é a privatização do ‘handling’".Para o sindicalista, “é evidente que a SATA Air Açores não está salvaguardada” com a privatização do ‘handling’.