Privatização da ANA trouxe mais precariedade nos aeroportos
4 de jun. de 2024, 20:58
— Lusa/AO Online
“Do ponto de vista
dos trabalhadores, a privatização da ANA trouxe um aumento brutal de
precariedade nos aeroportos nacionais”, afirmou Fernando Henriques, do
Sindicato dos Trabalhadores da Aviação e Aeroportos (Sitava), perante os
deputados da Comissão de Economia, Obras Públicas e Habitação.O
representante sindical considerou que a privatização da gestora
aeroportuária “foi lesiva do interesse público” e “ainda mais lesiva
para os trabalhadores” e que o negócio foi bom para a Vinci e também
para o presidente do Conselho de Administração, José Luís Arnaut, que,
lembrou o sindicalista, assessorou o processo de venda.Fernando
Henriques disse que se tem assistido ao esvaziamento dos quadros da ANA
nos últimos 10 anos, com menos 20% de mão de obra face ao período antes
da privatização, e com um número de passageiros que quase triplicou.Este
esvaziamento, prosseguiu, traduz-se no recurso a empresas de
subcontratação que têm dificuldade em pagar mais do que o ordenado
mínimo nacional, levando a que haja “precariedade generalizada nos
aeroportos portugueses”.Da parte do
Sindicato Democrático dos Trabalhadores dos Aeroportos e Aviação
(Sindav), José António Vinagre alertou que a paz social na empresa “está
por um fio”, numa altura em que após cerca de três anos e quase 60
reuniões ainda não foi possível chegar a consenso para um novo acordo de
empresa, depois de a ANA ter denunciado o anterior acordo de 2015.O
Sindav recordou ainda que a ANA anunciou, no ano passado, a intenção de
vender a sua empresa de serviço em terra Portway, mas até ao momento
não foram comunicadas mais informações.Já
Rúben Simas, do Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Aviação Civil
(Sintac), considerou que a privatização da ANA trouxe um conjunto de
preocupações e desafios que têm impacto nos trabalhadores, na operação e
nos passageiros.“Desde o início da
concessão por 50 anos – exageradamente longa – observamos […] maior
pressão sobre os trabalhadores, em virtude do crescimento do tráfego
aéreo”, apontou o Sintac.Antes dos
sindicatos, foram também ouvidos representantes das comissões de
trabalhadores (CT) da ANA e da Portway, que acusaram a empresa de ter
transformado os aeroportos em “centros comerciais” e de recorrer à
subcontratação.“Cerca de um terço dos
trabalhadores são aquilo a que a administração chama de reciclagem. A
Subcontratação é feita sazonalmente, […] por exemplo em 31 de março são
capazes de sair 600 trabalhadores e no dia 01 de abril entram mais 600, é
o que a empresa chama de reciclagem”, explicou Bruno Granito, da
Portway.Da parte da CT da ANA, João
Figueiredo defendeu que a privatização não defendeu os interesses do
país e vincou que “não existia nada no contrato de concessão que
apontasse para uma alteração no fundo de pensões”, que a empresa
suspendeu.A privatização da ANA ao grupo
francês Vinci foi anunciada em 27 de dezembro de 2012 e concluída em
setembro de 2013, num processo controverso que motivou chamar os
intervenientes a prestar esclarecimentos no parlamento mais de uma
década depois.O grupo parlamentar do PCP
tinha apresentado uma proposta para criação de uma Comissão Eventual de
Inquérito Parlamentar, “tendo por objeto apurar as responsabilidades
políticas e administrativas dos Governos e dos Conselhos de
Administração da ANA Aeroportos que envolveram a privatização da empresa
e as suas implicações para o Estado e a gestão da rede aeroportuária
nacional”, mas foi rejeitada com os votos contra do PSD, PS e CDS e a
abstenção do Chega.Por requerimento do
PCP, vão ser chamados ao parlamento o antigo primeiro-ministro Pedro
Passos Coelho, o antigo ministro das Finanças Victor Gaspar, a antiga
secretária de Estado do Tesouro Maria Luís Albuquerque, o antigo
secretário de Estado das Infraestruturas Sérgio Monteiro, o presidente
do Conselho de Administração da ANA, José Luís Arnaut, o presidente
executivo da empresa, Thierry Ligonnière, e as organizações
representativas dos trabalhadores da gestora aeroportuária.Já
o PSD requereu as audições dos ex-ministros das Infraestruturas
socialistas Pedro Marques, Pedro Nuno Santos e João Galamba, do
presidente do Tribunal de Contas, José Tavares, do juiz conselheiro
relator do relatório de auditoria sobre a privatização da ANA, José
Manuel Quelhas, e da juíza Maria José Brochado, bem como dos
ex-presidentes do Conselho de Administração da Parpública Joaquim Pais
Jorge e Pedro Ferreira Pinto.