Primeiro navio de resgate atraca em Itália depois de adotadas novas regras
Migrações
2 de jan. de 2023, 13:12
— Lusa/AO Online
A organização a que
pertence o navio, a Médicos Sem Fronteiras (MSF) informou, no domingo à
noite, que tinha resgatado 41 migrantes à deriva no mar Mediterrâneo,
além de ter recebido, de um navio mercante, outras 44 pessoas que tinham
sido retiradas no fim de semana de uma embarcação precária.O
resgate realizado pelo navio da MSF foi autorizado pelas autoridades
italianas, que indicaram o porto de Taranto, em Apúlia, no sul de
Itália, para o desembarque.A nova política
aprovada na última quarta-feira pelo Governo liderado pela líder da
extrema-direita, Giorgia Meloni, não proíbe o resgate de migrantes por
navios humanitários mas complica a sua realização.O
decreto, ratificado pelo Presidente da República, Sergio
Mattarella, prevê a aplicação de um regime de sanções administrativas,
em substituição das penais, às organizações não-governamentais que
resgatem, sem autorização, migrantes do mar para os desembarcar no país.A
nova legislação permite ainda proceder à “detenção administrativa do
navio e, em caso de reincidência da conduta proibida, ao seu confisco,
precedido de apreensão cautelar”.Embora o
valor das multas não tenha sido especificado, a imprensa local estima
que a sanção para os navios deva atingir os 50.000 euros e que seja de
10 mil euros para o capitão e o proprietário do barco, caso não
forneçam, previamente ao resgate, as informações exigidas. O
Governo de Itália garantiu que as novas regras serão aplicadas apenas
em casos de violação dos limites territoriais ou proibição de entrada no
país, sublinhando que serão respeitadas todas as situações previstas na
Convenção do Direito do Mar das Nações Unidas para a segurança das
pessoas recuperadas no mar.Na semana
passada, o navio ‘Ocean Viking’, da organização SOS Méditerranée,
atracou em Livorno (centro da Itália), depois de resgatar 113 migrantes,
o que já fez parte da nova estratégia do Governo italiano que obriga a
que o desembarque seja feito longe da zona de resgate, para que decorram
vários dias entre a chegada ao porto e o regresso aos resgates.As
novas regras, idealizadas pelo vice-presidente e ministro das
Infraestruturas, Matteo Salvini, defensor da política italiana de
“portos fechados” às organizações humanitárias, foram adotadas depois
de, em novembro, Itália e França terem protagonizado um diferendo
diplomático que levou os ministros do Interior de toda a União Europeia a
realizar uma reunião extraordinária.Em causa esteve a rejeição pela Itália de receber um navio de resgate humanitário com mais de 230 migrantes a bordo.O
navio acabou por desembarcar em França, tendo o Governo italiano
justificado a sua posição afirmando que a responsabilidade de acolher os
migrantes deve ser dos países de bandeira dos navios de resgate
(normalmente do norte da Europa).Itália é
abrangida pela chamada rota do Mediterrâneo Central, uma das rotas
migratórias mais mortais, que sai da Líbia, Argélia e da Tunísia em
direção à Europa, nomeadamente aos territórios italiano e maltês.De
acordo com as estimativas da Organização Internacional para as
Migrações (OIM), mais de 2.000 migrantes e refugiados perderam a vida
nesta rota durante o ano 2022.Segundo o
Ministério do Interior italiano, no ano passado, mais de 100.000 pessoas
chegaram à costa italiana, um número que o Governo considera
incomportável.