Primeiro leite biológico dos Açores em risco de deixar de ser produzido

Hoje 16:33 — Lusa/AO Online

“Perante a intenção de reduzir para cerca de metade, ou menos, as quantidades de leite biológico a receber, muitos produtores poderão ser obrigados a abandonar a produção biológica e a regressar ao modelo convencional. Não o farão por falta de convicção, mas porque nenhuma exploração agrícola sobrevive sem viabilidade económica”, afirmou o presidente da APLBIO, Bento Pereira, citado num comunicado enviado à agência Lusa.Em 2017, um grupo de oito produtores de leite da ilha Terceira converteu as suas explorações para produção em modo biológico e dois anos depois foi lançado o primeiro leite biológico dos Açores.Atualmente, existem entre “16 e 20 produtores” de leite biológico na ilha, mas foram informados pela cooperativa Unicol, que recolhe o leite, de que os contratos terminariam no final deste ano e que seriam oferecidas novas condições a partir de 2027.“Recebemos uma carta a finalizar o contrato daqui a seis meses, que é no último dia deste ano. Acabam os contratos por falta de viabilização do projeto. Não está a ser viável recolher o leite ao preço a que está e vender”, adiantou, em declarações à Lusa, Bento Pereira.Atualmente, o preço pago ao produtor do litro de leite produzido em modo biológico tem um acréscimo de 12 cêntimos face ao preço da produção em modo convencional.Segundo o presidente da associação, o novo contrato, que só deverá ser conhecido em novembro, deverá apresentar preços mais baixos e uma “redução significativa” das quantidades de leite a entregar.“Dizem que não querem acabar com o leite biológico, mas precisam de reduzir significativamente. E vai ser inevitável a baixa de preço”, revelou Bento Pereira.A Unicol alega que apenas 28% do leite entregue por estes produtores é transformado e comercializado como leite biológico.“Estão a recolher muito leite só para vender em leite e não estão a conseguir escoar o produto”, disse o presidente da associação.Segundo Bento Pereira, quando o projeto foi alargado a mais produtores, a fábrica pretendia criar outros produtos biológicos, como queijo e leite em pó.No entanto, uma tentativa mal sucedida de produção de queijo biológico noutra ilha afastou essa intenção e a produção atual era insuficiente para a transformação em leite em pó.O presidente da Associação de Produtores de Leite Biológico Terceirense apelou à intervenção “urgente” do Governo Regional para travar o fim da produção.“Não é aceitável que um setor que foi incentivado durante anos a apostar na produção biológica seja agora deixado à sua sorte, sem respostas concretas, sem garantias e sem uma estratégia clara de salvaguarda. A inação, neste momento, poderá conduzir ao colapso de várias explorações e à perda irreversível de um modelo de produção que importa preservar”, apontou, em comunicado.Bento Pereira acusou ainda o executivo da coligação PSD/CDS-PP/PPM de não cumprir com os apoios prometidos à importação de ração para este tipo de explorações em modo biológico.“O Governo anterior dava um apoio ao transporte da nossa ração. É um apoio que dão para os cereais aos produtores convencionais. Nós compramos ração, porque não existe fábrica de ração cá. E este Governo desde o início disse que ia apoiar, mas nunca apoiou”, contou.“As nossas principais despesas são com a ração, mas temos de dar ração aos animais para conseguir tirar leite. E o preço da ração é muito mais alto do que o da ração convencional”, acrescentou.O presidente da associação lamentou também a falta de aposta na promoção de um produto açoriano de valor acrescentado.“Acho que corre o risco de desaparecer, com muita pena minha, que fui dos primeiros produtores e tenho muito gosto. E acho que se consegue produzir este leite biológico a um custo razoável, mas é preciso haver várias partes a cumprir as suas obrigações e a fazer a divulgação do produto”, frisou.Bento Pereira admitiu que a própria APLBIO, criada em 2022, poderá ser extinta, se metade dos produtores abandonar a produção em modo biológico.