Primeiro grupo de migrantes resgatados nas costas italianas levado para a Albânia
Migrações
14 de out. de 2024, 12:44
— Lusa/AO Online
O navio da Marinha italiana
dirige-se para a Albânia, onde o grupo de migrantes - composto apenas
por “homens, provenientes de países seguros e não vulneráveis” – será
recebido num dos dois centros de acolhimento construídos em território
albanês, sob jurisdição italiana, para dar início a “procedimentos
fronteiriços acelerados”.Estes migrantes,
que foram recolhidos no Mar Mediterrâneo por navios italianos, serão os
primeiros a serem abrangidos pelo controverso acordo de “deslocalização”
para um país terceiro, que não faz parte da União Europeia (UE), para
análise dos pedidos de asilo ou, caso não sejam aceites, para os
procedimentos de deportação.O acordo,
assinado entre Roma e Tirana em novembro do ano passado, deveu-se,
segundo a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, à necessidade de
“aliviar o fardo” migratório de Itália, onde, só no ano passado,
desembarcaram 145 mil migrantes em situação irregular.A
escolha da Albânia foi explicada com a afirmação de que o país “se
comporta como se fosse um Estado-membro” do bloco europeu, e pelo “apoio
contínuo de Itália ao alargamento da União Europeia aos Balcãs
Ocidentais”.Mas o acordo foi intensamente criticado por vários quadrantes, quer internos quer externos.Internamente,
a líder do principal partido de oposição em Itália, o Partido
Democrático, referiu que o acordo “parecia uma violação aberta do
direito internacional e europeu”, enquanto o presidente da Conferência
Episcopal Italiana e arcebispo de Bolonha considerou ser “uma admissão
de incapacidade” de Itália em receber os migrantes.Também
a secção italiana da organização internacional de defesa dos direitos
humanos Amnistia Internacional considerou o acordo “ilegal e inviável”,
já que as pessoas resgatadas nas costas italianas ficam sob jurisdição
italiana e “não podem ser transferidas para outro Estado antes de os
seus pedidos serem examinados”.A nível
externo, o Conselho da Europa defendeu que o acordo estava a criar “um
regime de asilo extraterritorial ‘ad-hoc’ caracterizado por muitas
ambiguidades legais”, enquanto o Alto Comissariado da ONU para os
Refugiados (ACNUR) sublinhou que “os acordos de transferência de
requerentes de asilo e refugiados devem respeitar o direito
internacional dos refugiados”.A Amnistia
Internacional alertou que as pessoas que sejam levadas para os centros
na Albânia, “incluindo refugiados e requerentes de asilo”, serão
“automaticamente detidas e não poderão sair dos centros durante 18
meses”.A Comissão Europeia demonstrou
inicialmente dúvidas sobre a legalidade do tratado, mas acabou por
considerar que o protocolo não viola o direito comunitário e, desde maio
deste ano, vários Estados da UE, como a República Checa, a Dinamarca, a
Hungria, os Países Baixos ou os Estados bálticos têm defendido a
multiplicação deste tipo de acordos.Também
o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, manifestou especial
interesse no processo e noutras medidas que reduziram a migração para
Itália este ano, numa visita a Roma no mês passado.O
documento assinado entre Itália e Albânia determina a criação, em
território albanês, de centros com capacidade de até 3.000 pessoas que,
uma vez operacionais, poderão receber um fluxo anual de 36.000 pessoas.Os centros efetuarão procedimentos iniciais de identificação e triagem e irão também tratar de pedidos de asilo e repatriamento.Situados
em Schengjin e Gjiader, os centros ficaram operacionais na semana
passada e, segundo o ministro do Interior italiano, “são semelhantes aos
de Itália”, com regimes de “detenção ligeira”, sem arame farpado e com
cuidados de saúde.Os dois centros custam à
Itália 670 milhões de euros, a pagar até 2029, sendo que as instalações
serão geridas por Roma e estarão sob jurisdição italiana, mas serão os
guardas albaneses que vão garantir a segurança.Itália,
a par de Espanha, Grécia ou Malta, é conhecida como um dos países da
“linha da frente” ao nível das chegadas de migrantes irregulares à
Europa.O país está integrado na chamada
rota do Mediterrâneo Central, encarada como uma das mais mortais, que
sai da Tunísia, Argélia e da Líbia em direção ao território italiano, em
particular à ilha de Lampedusa, e a Malta.