Primeiro festival musical pós-25 de Abril recordado em documentário
22 de out. de 2017, 14:28
— AO/Lusa
“Isto é uma forma de homenagearmos e fazermos jus
àquela gente, aproveitando o facto de eles ainda estarem vivos para nos
contarem cara a cara o que sentiram, e deixar isto como um legado para
os mais novos, para se sentirem inspirados”, adiantou, em declarações à
Lusa, Rogério Sousa, um dos autores do documentário.Após quatro
anos de recolha de material, a associação cultural Burra de Milho, de
que Rogério Sousa já foi presidente, lançou este ano uma página na
internet, em que reúne não apenas um documentário sobre o festival
“Musical Açores”, como informações, registos de áudio e fotografias. “Mal
há liberdade, é na Praia da Vitória que acontece o primeiro festival de
verão, numa zona pequeníssima, que tem poucos habitantes. E acontece
porquê? Pela influência da base [das Lajes] e pelo facto de a Praia da
Vitória ser um espaço tão cosmopolita e aberto ao mundo”, salientou
Rogério Sousa.Em 1975, quase todos os jovens da Praia da Vitória
tinham amigos norte-americanos, que facilitavam a sua entrada na base
das Lajes, para frequentarem os clubes e o cinema.Foi o filme
“Woodstock” que, ainda antes de se estrear nas salas de cinema
portuguesas, inspirou um grupo de 15 a 16 jovens a criar um festival
semelhante ao norte-americano na praia da Riviera, na cidade da Praia da
Vitória. “Tínhamos acabado de sair de uma revolução do 25 de
Abril. Estávamos em 1975, cheios de uma liberdade que nem sabíamos bem o
que era”, salientou Carlos Armando Costa, um dos membros da organização
do “Musical Açores”, o segundo festival em Portugal, depois de Vilar de
Mouros.A Força Aérea portuguesa colaborou com o transporte de
músicos de outras ilhas e a autarquia cedeu camiões, mas não foi
atribuído qualquer apoio financeiro público. O palco foi
improvisado com bidões de combustível, paletes e contraplacados, as
colunas e as luzes foram colocadas em andaimes de obras e a eletricidade
foi puxada de uma casa perto da praia, onde vivia um militar
norte-americano. Depois de um percalço com a carga elétrica, o
festival arrancou por volta das 22:00 do dia 10 de julho de 1976,
sexta-feira, e só terminou na tarde do dia seguinte, com um cartaz
composto apenas por bandas açorianas, que atuaram de forma gratuita. “Estava
tudo cheio de carros e cheio de gente. As pessoas levaram tendas e
começaram a acampar lá”, recordou Carlos Armando Costa, admitindo que
não estava à espera de aparecerem tantas pessoas.Na segunda
edição, ainda com recurso ao improviso, a organização melhorou o palco e
o som e conseguiu três bandas de Lisboa, os Beatnicks, os Aranhas e o
duo Licínio e Moreno, o que provocou uma afluência ainda maior.Estima-se
que tenham passado pelas duas edições cerca de 10.000 pessoas, mas
Carlos Armando Costa prefere não arriscar um número, até porque a
entrada era gratuita. As poucas despesas do festival foram pagas
com dinheiro angariado em peditórios, com a venda de t-shirts ou com o
aluguer de uma tasca, mas na segunda edição Carlos Armando Costa e um
amigo ainda tiveram de pagar do seu bolso a conta de um restaurante, que
serviu refeições aos músicos de fora da ilha.“As pessoas hoje
estão muito habituadas a que o Estado, o Governo, a câmara é que têm de
fazer tudo. Eu acho que é um mau princípio, porque as pessoas têm de ter
iniciativa e vontade de fazer, não é ficar só à espera que as coisas
apareçam”, salientou. Na terceira edição, a organização contava
levar à Praia da Vitória uma banda dos Estados Unidos, mas isso já
exigia apoios públicos e a rejeição por parte do Governo Regional acabou
por ditar o fim do “Musical Açores”.“Estamos a falar de uma
época dois, três anos depois do 25 de Abril. Ainda havia algum
conservadorismo nas instâncias governamentais. Na mentalidade das
pessoas mais velhas, nós mais novos éramos rebeldes e queríamos romper
com alguns conceitos que a sociedade tinha”, explicou Carlos Armando
Costa.Se tivessem criado uma associação, como aconteceu anos mais
tarde na ilha de Santa Maria com a “Maré de Agosto”, Carlos Armando
Costa acredita que o “Musical Açores” se teria mantido até aos dias de
hoje, mas recusa a ideia de retomá-lo, passadas quatro décadas da última
edição. “De vez em quando alguém diz: porque é que não se
reativa? Eu tenho defendido sempre que aquilo foi feito num determinado
contexto, de uma determinada forma. Qualquer coisa que se faça hoje, não
vai ser a mesma coisa”, frisou.