Primeiro caso de cura de bebé infetado com VIH/sida apresentado nos Estados Unidos

4 de mar. de 2013, 08:25 — LUSA/AO Online

  Trata-se do primeiro caso de uma "cura funcional", de uma criança contaminada à nascença com o VIH, transmitido pela mãe seropositiva, que desconhecia estar infetada durante a gravidez. Para os virologistas, não se trata da erradicação do vírus, mas sim do seu enfraquecimento, de tal maneira que o sistema imunitário da criança pôde controlá-lo sem antirretrovirais. A apresentação do caso foi feita na 20.ª Conferência Anual de Retrovírus e Infeções Oportunistas, em Atlanta, Estados Unidos, escreve a agência France Presse. O bebé, natural do Estado rural do Mississipi, começou a ser tratado com antirretrovirais cerca de 30 horas após o seu nascimento, um método pouco habitual. A terapêutica usada, mais agressiva e precoce, poderá explicar a cura funcional da criança, ao bloquear a formação de reservatórios virais difíceis de tratar, de acordo com os médicos. As células contaminadas "dormentes" relançam a infeção na maior parte das pessoas seropositivas, em algumas semanas após a suspensão dos antirretrovirais. Deborah Persaud, médica e professora associada no Centro Infantil Johns Hopkins, que liderou a investigação, assegura que a criança, com 2 anos e meio, esteve quase um ano sem medicação, período durante o qual não apresentou sinais do vírus ativo. Segundo a especialista, principal autora do relatório clínico, a carga viral no sangue do bebé começou a baixar assim que começou a ser tratado. Persaud e outros médicos garantem que a criança esteve realmente infetada com o VIH, ao responder positivo à presença do vírus no sangue em cinco testes, efetuados no primeiro mês de vida. O bebé foi tratado com antirretrovirais até ter um ano e meio, idade a partir da qual os médicos perderam o seu rasto, durante dez meses. Ao longo deste período, a criança não recebeu qualquer terapêutica. Os médicos fizeram, posteriormente, uma série de testes sanguíneos, sem detetar a presença do VIH no sangue do bebé. De acordo com os virologistas, a supressão da carga viral do VIH, sem tratamento, é extremamente rara, sendo observada em menos de 0,5% dos casos de adultos infetados, cujo sistema imunitário impede a replicação do vírus e o torna clinicamente indetetável. Novos estudos estão a ser equacionados para aferir se tratamentos precoces e agressivos, como os da criança do Mississipi, funcionam noutros bebés infetados. Os tratamentos antirretrovirais na mãe permitem evitar a transmissão do vírus ao feto em 98% dos casos, segundo os especialistas. A investigação foi financiada pelo Instituto Nacional de Saúde norte-americano (National Institutes of Health) e a Fundação Americana para a Investigação da Sida (American Foundation for AIDS Research).