Primeiras publicações a sugerir ataque russo com origem provável em Portugal
Apagão
7 de mai. de 2025, 16:02
— Lusa/AO Online
A hipótese é levantada por um grupo de
investigadores do Medialab do ISCTE, num relatório divulgado hoje, em
parceria com a Comissão Nacional de Eleições (CNE), para monitorizar a
desinformação durante a campanha para as eleições legislativas de 18 de
maio.No relatório dedicado ao corte
generalizado no abastecimento elétrico que, na semana passada, afetou
Portugal e Espanha, os investigadores sublinham que “a ausência de
comunicação institucional eficaz nas primeiras horas contribuiu para um
vácuo informativo” a analisam uma das principais teorias veiculadas, que
atribuíam o apagão a um ciberataque russo.Esta
narrativa começou a circular nas redes sociais portuguesas por volta
das 11:50, cerca de 20 minutos após o início do apagão, em publicações
que reproduziam uma alegada notícia da CNN Internacional com declarações
atribuídas à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.A
origem da publicação é incerta, mas a análise feita pelos
investigadores do Medialab indica que a difusão inicial poderá ter
ocorrido em Portugal, com uma versão em português que depois serviu de
base para outras traduções, incluindo em russo.Pelas
13:55, começam também a surgir as primeiras reações ambíguas de ‘media’
russos, como o BFM, que misturavam elementos noticiados e rumores não
verificados, com sugestões de ataque coordenado e sabotagem
transnacional.De acordo com o relatório, a
informação era replicada no WhatsApp e em canais do Telegram associados
a ambientes pró-russos, alcançando logo nas primeiras horas dezenas de
milhares de visualizações.Nos dias
seguintes, grupos de ciberativistas pro-russos reivindicaram
responsabilidade pelo suposto ataque, associando alegadas provas de
ataques de negação de serviço distribuído.“No
entanto, especialistas em cibersegurança consultados descartaram
qualquer relação com o apagão, sublinhando que estes grupos não possuem a
capacidade operacional para causar falhas na infraestrutura elétrica”,
refere o relatório, que acrescenta que estes grupos aproveitaram o
apagão para tentar capitalizar-se mediaticamente.Além
desta, circularam outras teorias para tentar explicar o corte
energético, cuja origem ainda não é conhecida, e os investigadores
referem até mensagens disseminadas que, por outro lado, apresentavam um
‘spin’ ideológico que favorecia a Rússia.No
Telegram, circularam publicações que insinuavam que o apagão seria um
“teste de resiliência” promovido pela NATO, ou uma operação de
engenharia social para justificar uma escalada militar futura.Outra
teoria associava a falha energética às políticas ambientais de
transição energética, ou às sanções contra a Rússia e à degradação da
infraestrutura europeia, e o relatório cita algumas das mensagens
partilhadas neste sentido, com indícios de tradução automática ou de
terem sido criadas com recurso à inteligência artificial.Ao
longo daquela semana, a maioria das publicações relacionados com o
apagão foram partilhadas no X (58,21%) e no Facebook (33,68%),
seguindo-se o Instagram (6,03%), TikTok e Reddit (ambos 1,04%).Além
do motor de inteligência do X, com respostas a perguntas dos
utilizadores a perguntas sobre as várias narrativas, as contas dos meios
de comunicação foram aquelas que mais publicaram sobre os conteúdos
desinformativos relacionados com o apagão, sobretudo para os
desconstruir.A esmagadora maioria das
publicações (81%) feitas naquele período são consideradas neutras, mas
aquelas que aparentam acreditar ou propagar essas narrativas são mais do
dobro daquelas que as desmentem (12% contra 6%) e chegaram a muitas
mais pessoas em comparação com a verificação dos factos.A
Comissão Nacional de Eleições (CNE) e o MediaLab, do ISCTE, em parceria
com a agência Lusa, estão a monitorizar as redes sociais para
identificar e medir o impacto da desinformação na campanha das
legislativas de maio, prolongando-se até 24 de maio.O Medialab produz semanalmente relatórios sobre o fenómeno da desinformação.